SINOPSE : OS DESERDADOS DA SORTE
A Coletânea " VEJA O ANZOL PELOS OLHOS DO PEIXE" é uma deliciosa e surpreendente coletânea de contos que espero agradar a todos os gostos; nem todos, é claro... De maneira ágil, permitindo que o leitor saboreie o desfecho de cada parágrafo sem mistério ou complicações, mas com indescritível prazer. A leitura flui como a calmaria de um sereno riacho para, de repente, transformar-se numa caudalosa correnteza sem machucar as margens do seu raciocínio. Esses 20 contos permanecerão na memória afetiva do leitor e o farão refletir sobre a condição humana. Principalmente dos deserdados da sorte. Grato! Ronaldo S. Oliveira.
TENHA ÓTIMA LEITURA, SIMONE SANTANA! E GRATO POR
TER ENCONTRADO O MEU CELULAR NA CATRACA DA TRENSURB E DEVOLVIDO. SEJA FELIZ, MINHA AMIGA, MUITO FELIZ... Ronaldo.
CONFIRA O ÍNDICE,
ROLE O MOUSE E ENCONTRE
ROLE O MOUSE E ENCONTRE
OS SEGUINTES CONTOS:
*E-MAILS AO VENTO...
*A ESPERA
*A ESPERA
*A DIVINA PROSTITUTA
*CHICO BUARQUE ESQUECEU DAS TENEBROSAS TRANSAÇÕES
*VIAGEM NO TEMPO PARA ENCONTRAR CABRAL
*ENSINA-ME A MORRER
*ESTUPROS, UMA BOA LEI E UM JUÍZ CONTRADITÓRIO
*O ÚLTIMO ORELHÃO
*A LONGA NOITE DOS MENDIGOS
* A VIDA NÃO VALE A PENA...
* FRANJINHA
* SULCOS & RUGAS
* AS MENINAS DOS CABELOS VERDES
* PONTEIROS
* UM OLHAR PROFUNDO ZELANDO PELO PLANETA
* UM MORTO PRECAVIDO, MAS NEM TANTO...
* PALAVRAS...
* UM HOMEM SÓ, 2 CAMISAS E 2 TERNOS IMPECÁVEIS...
FELIZ LEITURA E FAÇA
OS COMENTÁRIOS MAIS CRIATIVOS
NO FINAL DE CADA CONTO (Grato)
Cara advogada Alice, leia esta narrativa e a crítique brevemente, por favor. Pois aqui em Alvorada
estou cercado por um deserto de idéias. Grato. (Se tiver tempo...)
estou cercado por um deserto de idéias. Grato. (Se tiver tempo...)
E-MAILS AO VENTO
conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
Paraplégico, 42 anos, imobilizado da cintura para baixo. Não bebia nem fumava e fazia exercícios todas as manhãs. Exercício improvisado, mas pra valer. Erguia pesos acima do tronco inúmeras vezes, o que lhe proporcionava um físico definido. Sua aparência era de um cara de 30 anos e a voz quase inaudível resultava de não ter com quem falar, a não ser sua tia, com quem morava, mulher de poucas palavras e cara amarrada.
Adquiriu um computador e se encantou com os e-mails, essa possibilidade fantástica de enviar "cartas" em segundos. Como tinha mobilidade nas mãos, decidiu passar e-mails; mas para quem? Não conhecia ninguém além do pátio da sua casa. Ia arriscar um encontro no face book mas desistiu. A possível candidata descobriria, mais cedo ou mais tarde, a sua idade e condição física. Como inscreveu-se num concurso de contos decidiu tornar-se escritor e personagem. Criou uma conta em nome de "aurea@gmail.com" e iniciaram um relacionamento...
Querida Áurea, descobri o teu nome e o teu e-mail no face book, sem fotos ou qualquer descrição física. Acho isto bom. O que interessa é o íntimo das pessoas. Também nada falarei da minha aparência, embora não seja um monstro. Apenas vamos conversar. Com afeto, o amigo Otávio.
- Otávio, pra mim está ótimo. Vamos conhecer o nosso íntimo, "disse Áurea." Há um ano não tenho namorado, pois o único que tive foi assassinado num assalto; e desde então sou menos que um fragmento do tempo em que era feliz. E você, fale-me da sua vida?
- Pouco ou nada tenho a dizer de mim. Me constranjo, mas admito que sou virgem, não por motivos religiosos, não fui padre; e até considero um absurdo impor tal condição aos padres. Será que o Criador, se é que houve um Criador, concordaria com esse celibato obrigatório? Então por que Ele colocou o sexo no homem, cheio de apetites? Não vejo necessidade em ter religião. Mudemos de assunto, querida Áurea, até porque eu sou a pessoa menos indicada para falar disso. E tu não pensas em um novo romance?
- As cicatrizes ainda não se fecharam, caro Otávio. Me concentro no meu trabalho de atendente num hospital e no curso de enfermagem que em breve concluirei. No mais, é um cineminha caseiro na tv ou no youtube; aliás, te dou uma dica: assiste no face um filme maravilhoso que vi 4 vezes: "As Mulheres do 6º Andar". É um drama-comédia, mais drama que comédia, tem até uma pitadinha de luta de classes. A trilha sonora, de uma leveza incrível, é absolutamente envolvente. É a história, de mulheres pobres espanholas que emigram para a França para ter uma vida melhor como domésticas; tem situações e diálogos impensáveis.
O patrão de uma delas, um burguezão conservador, vai repensando o seu conservadorismo estimulado pela postura de Maria, a única das empregadas que fala francês. Ele tem uma esposa completamente fútil, que só pensa em compras e festas e acaba se apaixonando por Maria. Ao separar-se da mulher, sai de casa e vai morar num quartinho vago do 6º andar. Quando os dois filhos vão "exigir" que ele volte para o apartamento da família, ele simplesmente fala que nunca foi tão feliz como naquele pequeno espaço. Não vou contar todo o filme, mas a cena em que o patrão convida Maria para viverem na Espanha, é impagável. Ele diz que trabalhará como pedreiro ou carpinteiro, ao que Maria o interrompe dizendo: "com essas mãos lisinhas, sem calos...?" É imperdível, querido Otávio! Você gosta de cinema?
(Visivelmente feliz pelo querido dito por Áurea) responde: vou assistir hoje mesmo "As Mulheres do 6º Andar" mas, antes mesmo, estou emocionado com o teu entusiasmo. Também adoro cinema. Ela interrompe Otávio e afirma: - taí uma bela identificação entre nós. Não sei de você, mas eu prefiro ver filmes na tela grande do cinema. É completamente envolvente. Desconversando, Otávio pensa na sua condição de cadeirante e balbucia apenas: - Acho que sim, acho que sim...
Ainda falando sobre cinema, Áurea lamenta quando a sessão acaba e o cinema é iluminado. "Sinto que enfiei o pé na realidade e, se o fiscal não pedir pra sair, fico para a outra sessão."
2º DIA
- Bom dia, Áurea! Que tipo de preconceitos você tem? - Como assim? ela pergunta surpresa. Nada, nada, desconversa Otávio. - A propósito, como foi a sua infância ? - Nada feliz.Tornei-me órfão de mãe aos 8 anos. Ela tinha traços muito delicados e possuia uma franjinha encantadora; é o que me lembro. Meu pai disse que ia viajar por uns dias, deixou-me com a minha avó, e sumiu para sempre. A minha avó, viúva e pensionista de um salário mínimo e meio, enfrentava severas dificuldades mas possibilitou-me concluir o 2º grau. Ainda menor de idade trabalhei como doméstica em duas casas e na segunda fui violentada pelo filho do patrão. Cidade do interior, longe de tudo, o rapaz também era menor e tudo ficou por isso mesmo. Consegui emprego no comércio e tive um namorado por quem me apaixonei. Mas não durou muito. Ele sofreu um assalto, já te falei, foi baleado e morreu.
Você nunca teve namorada, Otávio?
Uma falta de energia providencial evitou-lhe a resposta.
À TARDE DO MESMO DIA
- Oi, Áurea! Conheces aquele ditado que fala da dificuldade de fazer retornar o excesso de pasta de dente para o tubo? Pois bem, agora após o almoço o excesso foi grande. Deixei cair o tubo e a minha tia pisou em cima. E ela é bem gorda; imagina o prejuízo. Era o único tubo que havia em casa...
Não, não é possível tamanha coincidência, observou Áurea, "o meu tubo acaba de cair no vaso sanitário. A sorte é que eu tinha dois estocados. Nunca mais vou deixar o vaso aberto. Somos feitos de coincidências, meu querido. Precisamos nos conhecer. Otávio emudeceu.
- Áurea, tenho uma gatinha, a Preta, que é uma fofura. Sempre que uso o computador, ela se esparrama em volta do teclado e até dá "enter" com o rabinho. Tens algum bichinho de estimação? - Tenho um cachorrinho vira-lata que adora uma galinha que apareceu aqui no quintal. Ele é muito novinho e está crescendo na companhia dela. Dormem juntinhos. - Ah, então você mora numa casa. Isto é ótimo. Eu vivo confinado num apartamento térreo.
NOVO CONTATO, JÁ À NOITE
E o Carnaval de 2016, Otávio, como foi? - pergunta Áurea. "Assisti o maravilhoso desfile das Escolas de Samba do Rio. Foi algo deslumbrante, incrivelmente inventivo."
- Também achei, disse Áurea. Antes que ela completasse o pensamento, Otávio lembra, criticamente, uma cena marcante: - Uma das madrinhas de bateria da Escola de Samba Peruche, de São Paulo, foi brutalmente empurrada e chutada para fora da pista porque tentou tirar a roupa como protesto. Só teve tempo de mostrar os seios nus. Logo os seguranças da escola a agarraram e a chutaram para fora da pista. De salto alto, a pobre jovem desequilibrou-se e caiu. Por que esta hipocrisia num desfile em que grande parte das mulheres sambam seminuas, querida Áurea?
Depois se soube pela imprensa que ela desejava colocar a frase Fora Dilma! na frente do tapa-sexo. E digo mais, salienta Áurea, "quem desconfia fica sábio; por isso penso que a moça queria produzir um efeito muito acima da nudez ou sexo; o que a 'zelosa' escola de samba não podia permitir... Num bloco essa irreverência seria possível, pois os blocos não estão amarrados a 'compromissos' com o governo. Já as escolas mamam nas tetas do poder."
Otávio vibra com a observação de Áurea: "Como estamos identificados! Pelos comentários nas redes sociais verifiquei que muita gente não entendeu a atitude da moça..."Mas me diga uma coisa, Áurea, de onde você tirou esta bela frase 'quem desconfia fica sábio'?" Deixa pra lá - ela responde orgulhosa - "foi de algum livro..."
Otávio retoma o assunto: "Houve outra exceção. A Escola de Samba Mocidade de Padre Miguel desfilou com o enredo "O Brasil de la Mancha, sou Padre Miguel" criticando asperamente a corrupção. Foi um embate literário entre Dom Quixote e os corruptos. E o mais audacioso: a escola mostrou uma carroça cheia de corruptos, sem citar nomes, que por um ótimo artifício todos estavam invisíveis; mas identificavam, claramente, dois personagens pelas roupas: um terninho vermelho personificando claramente Dilma e uma luva preta, faltando um dedo, indicava Lula. Mas ainda é pouco protesto para mais de 20 escolas desfilando nos sambódromos do Rio/São Paulo", arremata.
Outro detalhe, ressalta Áurea: "os negros, fundadores do samba, estão sumindo. As madrinhas de bateria, com raríssimas exceções, são brancas famosas que só aparecem nas comunidades durante o Carnaval. A presença negra ainda se impõem na bateria, porta-bandeiras e mestres-salas. Não se trata de um sentimento racista; é só uma constatação..."
3º DIA
Otávio salienta que já falaram de cinema, carnaval, corrupção. Quase nada sobre romance. Então faz a pergunta presa na garganta: "Quando poderemos nos encontrar, Áurea? - Um grande silêncio. "Moro em outra cidade, bem longe, Otávio. Mas vamos marcar um dia, tá?" Otávio se apressa e combina o dia: "Sábado que vem vou te esperar na rodoviária," com o que Áurea concorda...
Otávio não envia qualquer e-mail. Pergunta-se qual seria a reação de Áurea ao ver um cadeirante quarentão à sua frente? E ocorre-lhe a "Alegoria da Caverna", de Platão, onde prisioneiros desde o nascimento permanecem acorrentados numa caverna escura podendo olhar somente para frente. Seria o caso de Áurea à frente de um cara diferente? Será que ela, a exemplo dos prisioneiros da caverna, consegue libertar-se do que as convenções lhe ensinaram. Ou ficará confinada aos preconceitos?...
4º DIA
Otávio não envia qualquer e-mail. Pergunta-se qual seria a reação de Áurea ao ver um cadeirante quarentão à sua frente? E ocorre-lhe a "Alegoria da Caverna", de Platão, onde prisioneiros desde o nascimento permanecem acorrentados numa caverna escura podendo olhar somente para frente. Seria o caso de Áurea à frente de um cara diferente? Será que ela, a exemplo dos prisioneiros da caverna, consegue libertar-se do que as convenções lhe ensinaram. Ou ficará confinada aos preconceitos?...
5º DIA
Eis que surge o sábado. O desembarque de Áurea será às 11 horas. Otávio levanta cedo. Deixa a cadeira de rodas brilhando e às dez toma o ônibus que o deixará na rodoviária.. Chega com 30 minutos de antecedência. E fica parado no meio do saguão com uma placa que anuncia: AQUI OTÁVIO.
E ali permanece até ao 1/2 dia; 13h30m; 15 horas. Um funcionário da lanchonete próximo à cadeira de Otávio se aproxima e pergunta se ele quer comer alguma coisa? Otávio diz que não tem fome. As horas vão passando e consomem a tarde. Ele pensa se ela não terá confundido com 11 da noite. E relaxa. A noite se faz presente. As 23 horas estão próximas. O funcionário da lanchonete, penalizado, oferece uma garrafinha de água mineral que Otávio aceita. O grande relógio do saguão marca 23 horas. Otávio ergue a placa AQUI OTÁVIO e a sustenta bem acima da cabeça por 15 minutos. Por fim, descansa. Olhos fixos no relógio apenas vislumbra os ponteiros de maneira turva. E prossegue esperando... Esperando... Esperando... Esperando... Esperando... Esperando...
COMENTÁRIO - Vera Guaianades disse: Quantos de nós, às vezes, não somos
possuidos por fantasias? Claro que o caso de Otávio é passivel de internação...
Mas na mente deste homem terrivelmente sofrido é uma "fantasia" doloridamente saudável. Por que? Porque é a maneira dele ser feliz. Amargamente feliz... Esse conto, muito original, merecia um filme curta-metragem. Valeu a pena, seu Ronaldo.
CONTO VERDADE
O ALUNO COMPARECEU À AULA DE CHINELOS E O PROFESSOR SURGIU CALÇADO NA INTOLERÂNCIA...
Texto de Ronaldo Soares de Oliveira
A vida mais uma vez imitou a arte, mas de maneira oposta. Vejamos: o vice-diretor do Centro de Ensino Fundamental de Arapuanga, em Planaltina, Brasília, "professor" JORDENES FERREIRA DA SILVA, 45 anos, fez exatamente o oposto do verídico professor PAT CONROY que, devido à dificuldade que os alunos da miserável Ilha de Yamacraw, na Carolina do Sul, tinham em pronunciar o seu nome o chamavam por CONRACK. A vida do professor resultou num filme que todo o educador deveria assistir, o qual pode ser encontrado no YouTube.
Mas antes de resumir a edificante história de CONRACK, narremos o bizarro episódio envolvendo o "diretor" da escola de Planaltina: foi agora, em fins de novembro de 2016, que o "professor" Jordenes Ferreira da Silva ao deparar-se com um aluno de 12 anos calçando "simplesmente" chinelos imediatamente tomou a seguinte atitude: repreendeu-o com desmedida energia, humilhou-o na frente dos demais alunos e mandou-o descalço para casa colocar um calçado "decente". Mas antes deu-lhe um pizão no pé!
Uma funcionária anônima filmou a cena com o celular e denunciou o fato para o Conselho Tutelar que, felizmente, logo constatou o fato na escola. Além das imagens, o Conselheiro ficou sabendo que o vice-diretor submetia alunos, professores, monitores e demais funcionários a situações vexatórias; o que motivou-lhe a prisão em flagrante.O vice-diretor Jordenes Ferreira alegou em sua defesa - pasme! - "o cumprimento da disciplina", pelo que o Conselheiro disse que tal falta deve ser punida imediatamente com base no Estatuto da Criança e do Adolescente e a pena, se tudo for confirmado, pode ser de 6 meses a 2 anos.
Mas o "professor" não ficou um só dia na cadeia pois, segundo a Secretaria de Educação, apenas se o caso ficar provado que o "professor" se excedeu ele responderá a um processo administrativo. Enquanto isso ele permanecerá na escola com a sua rotineira e impune arrogância...
AGORA VEJA A VIDA INCRÍVEL E
VOCACIONADA DO PROFESSOR CONRACK
O professor Conrack, interpretado no filme do mesmo nome, por Jon Voight, pai da atriz Angelina Jolie, é baseado na história real ocorrida em 1969 na Ilha de Yamacraw, Carolina do Sul. Seu nome era Pat Konroy e devido a dificuldade que os alunos da miserável Ilha tinham em pronunciá-lo ficou conhecido como Conrack.
O professor chega na paupérrima ilha para lecionar numa escola de crianças negras. Toda a ilha é habitada por negros pobres, com exceção de uma pequena comerciante, a sra. Scott que é diretora da escola pouco maior que uma cabana. Todos são analfabetos, não sabem contar e desconhecem em que país vivem.
Conrack tenta dar-lhes uma educação de melhor nível, mas encontra obstáculo na sra. Scott que chama os alunos de lentos e preguiçosos, liquidando a autoestima deles. Ela acredita na pedagogia do chicote; Conrack responde jogando fora o livro de regras e lições "pedagógicas". Os alunos ficam encantados quando lhes é mostrada a música clássica, filmes, natação e a importância de escovar os dentes. O chefe dele, o sr. Skeffington que mora numa cidade próxima começa a ficar insatisfeito com os métodos de Conrack que afirma que o racismo é o culpado pelo desinteresse dos estudantes, o que contraria o seu chefe...
Ele passa um filme que mostra o eterno dilema e confronto entre o Novo e o Conservador, entre a Autoestima (e a falta dela)... e o desconhecimento do mundo. As cenas remetem à metáfora do pescar, que é um exercício de paciência, com o ato de educar (invertendo a posição do anzol por um ponto de interrogação). Quer dizer, o verdadeiro professor é aquele que mais coloca dúvidas do que certezas em seus alunos, o que estimula a pensar e pescar ideias... A sra. Scott, assim como o diretor da escola de Brasília, exige "disciplina e respeito" porque, segundo ela a escola não é "parque de diversões". Ao que Conrack contesta mostrando que o ato de educar pode ser um diálogo divertido, desde que se saiba conduzir brincadeiras com sentido pedagógico. Há que sempre se incentivar o debate, dando vez e voz ao aluno, e os resultados serão surpreendentes, desde que o professor domine o conteudo... O chefe dele, revoltado, não considera "aquilo ensino e sim palhaçada..."
A sra. Scott não acredita em máquinas para educação (é conteúdista). Conrack também não acredita, se tais equipamentos forem tratados apenas como máquinas e não como possibilidades de interação entre pessoas na sala de aula ou após o horário escolar entre outras pessoas mundo afora. Ele abusa da afetividade e carinho, pois são alunos carentes em todos os sentidos... Reveladora e emocionante é a cena da descoberta da sexualidade.
E diante do desconhecimento dos alunos sobre a festa da Hallowen, resolvem ir a cidade próxima de Beaufort para viver o Dia das Bruxas. Mas para isso pedem permissão à matriarca da comunidade, sra. Graves, considerada a abelha-rainha; afinal os alunos nunca sairam da ilha vivendo confinados nesta espécie de gueto. Outra metáfora da educação: quando as crianças estão no barco e usam coletes salva-vidas é como se o professor esteja apontando caminhos, salvando vidas, fazendo os alunos acreditarem em seus sonhos…
Uma cena particularmente linda é quando todos sentem a falta de uma aluninha por uma semana. Conrack descobre que as faltas às aulas da menina ocorriam porque ela não tinha calçados. O que é que Conrack faz: ao contrário do "diretor" da escola de Brasília, o vocacionado professor Conrack reúne todos os alunos e pede que fiquem descalços. Vão ao barraco da menininha e a convencem a voltar para a aula. Todos descalços...
Um dos motivos da demissão de Konack ocorre em instância superior, que chega a ser cômico, se não fosse trágico. É porque o professor mostrou "uma vagina de uma mulher nua na sala de aula", quando na verdade se tratava de uma obra clássica de pintura do artista plástico Pablo Picasso. Quer dizer, pior que o desconhecimento do aluno e de toda uma comunidade é o preconceito, a discriminação, o conservadorismo e o desconhecimento de outros educadores que ainda impedem que educadores libertários exerçam a sua profissão...
Não custa repetir: este belo filme foi inspirado numa história real.
PS.: EM CERTA OCASIÃO COMPARECI A UM EVENTO EM MANGA-DE-CAMISA E FUI DURAMENTE REPREENDIDO. E O CALOR ERA INFERNAL...
ENSINA-ME A MORRER... conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
ENTREOLHARAM-SE e se surpreenderam por desenvolver o mesmo passatempo... Mas vejamos a história deles. Saffira era o seu nome (com dois efes, ela insistia). Tinha 27 anos e saíra de um relacionamento com um fim trágico. Ricardo, 54 anos, teve um matrimônio conturbado que não passou dos 4 anos. Foi aposentado precocemente por conta de um AVC que o deixou com a mão direita imobilizada.
De repente, decidiu que não mais perderia as tardes jogando damas com idosos na pracinha. Foi para o metrô e se encantou com a multidão. Entrava num vagão e descia quatro estações depois... Gostou e fez disso o seu passatempo diário. E adquiriu o hábito de perceber paqueradores; passageiros discretos; abusados, que se encostavam maliciosamente nas mulheres como quem não quer nada; ladrões, típicos por ficarem colados às bolsas dos passageiros ou espiando os desatentos que se esqueciam de vigiar mochilas e sacolas no chão... E, quando o marginal se preparava para saquear a vítima, ele entrava em ação tossindo na sua cara, fazendo-o desistir…
A vida de Saffira tinha um toque mais dramático. Aos 16 anos foi estuprada pelo padrasto. “Abrindo-se uma pessoa pode-se encontrar as mais tristes paisagens...” Assim ela se sentia em relação à violência sofrida. Saiu de casa e trabalhou como doméstica em várias casas. Concluiu o segundo grau, à noite, pelo Supletivo e passou a viver com a avó, que era paupérrima. Logo, em seguida, para evitar despesas foi para casa de uma tia, mas por pouco tempo. Num emprego pouco melhor, no comércio, conseguiu alugar um quartinho mais que modesto e até prestou vestibular para Matemática, que ela adorava... Mas não se classificou para a faculdade pública…
Teve apenas dois namorados e passou a morar com o segundo, por quem se apaixonou. Mas tudo acabou quando ele morreu prensado pela porta defeituosa de
um vagão do metrô. “A sensação desta morte sofrida se confunde, até hoje, com uma imagem que vai permanecer para sempre”, desabafa. Desde então ela nunca mais teve qualquer relacionamento amoroso... E, após o trabalho, começou a circular pelos vagões do metrô até às 22 horas e ia dormir. Para Saffira havia pouca ou nenhuma esperança por dias melhores.
“A VIDA É COMO AS RODAS DE UM TREM.
NUNCA ESTÁ NO MESMO LUGAR”
Descobriram-se ao descer e subir dos vagões inúmeras vezes. Apresentaram-se e entraram na lanchonete de uma estação. Solicitaram seus lanches: Saffira pediu chá preto com um pastel de cenoura, que não havia. Tomou apenas o chá. Ricardo pediu uma latinha de cerveja. Ela se definiu como uma “incompreendida”... E andar pelos vagões se tornou uma experiência muito divertida. Além do que – observava – “tenho salvado muitas bolsas...”.
Ambos retomaram o trem. E assistiram a uma cena inusitada: um casal discutia ferozmente, chegando a trocar tapas, quando o rapaz começou a rasgar as folhas do que parecia ser um diário. Uma das folhas caiu aos pés de Saffira, que a recolheu. O papel dizia, em letras trêmulas, “preciso deixar-te. Não dá mais para aguentar...”. Tal leitura indicou o porquê da briga. Saffira adiantou-se para intervir. Em seguida, chegou Ricardo. Eles argumentaram que a discussão era inútil, pois já haviam lido uma das razões da moça... Eu tenho experiência – arrematou Ricardo – “vivi quatro anos com uma mulher que eu amava e, de repente, tudo se desfez. A solução foi a separação, sem atritos...” Saffira foi mais direta e acrescentou que “quando um casal chega a este nível, incluindo tapas, é inevitável a separação.”
A reação não foi das melhores. O rapaz, apontando o dedo para o rosto de Saffira, disse raivosamente, antes de pular do vagão: “vai-te fuder!” deixando a mulher dele chorando. Pronto! Descobrimos outro “serviço de trem”... Vamos prestar solidariedade à moça – disse Saffira. Ricardo concordou. A jovem se chamava Angélica e devia ter uns 21 anos. Perguntaram na aonde desceria? A resposta os deixou perplexos. “Vou ficar andando neste vagão até às 23 horas, quando o Mário retorna para casa; pois não tenho a chave do apartamento.” Mas, então, você vai voltar para ele? – perguntou Saffira. Sim, vou. Não tenho alternativa, respondeu
Angélica. Saffira sussurrou para Ricardo, em tom de brincadeira: “que tal a moça juntar-se a nós nas trocas de vagões?” Ricardo deu um sorrisinho maroto e disse pra Angélica sentar-se, recompor-se e esperar. E assim foi. Às 23 horas, ela partiu para o seu drama rotineiro...
Ambos eram fãs de novela. “Algumas” com a qualidade do bom cinema, concordavam... Falando em cinema, ela diz adorar o cinema americano, especialmente as comédias leves. E achava interessante sempre haver atores negros nos filmes. Mas admirava também o cinema brasileiro e citava “Tropa de Elite”, que assistiu duas vezes. Ricardo elogiava o cinema francês, principalmente o “antigo” (o qual Saffira, pela idade, não conhecera). Gostava das boas histórias, com uma pitada realista, das belas trilhas sonoras, da inesquecível Catherine Deneuve, Alain Delon... E aproveita para lembrar que Saffira tem “o narizinho deliciosamente empinado como a atriz francesa Juliette Binoche”. Pelo que, ela graciosamente agradece.
Ricardo aproveita a observação de Saffira sobre os negros no cinema americano e salienta que “as novelas e filmes brasileiros se parecem com produções dinamarquesas. Todos os atores são brancos, com raras exceções. Especialmente nas novelas...” Ao que Saffira admite que “nunca tinha pensado nisso, mas é uma verdade escandalosa.” Saffira observa, ainda, que no shopping onde trabalha raramente vê uma atendente negra nas lojas. No seu trabalho mesmo não há nenhuma. Ricardo lembra com amargura que um grande colega seu, negro, certamente um dos mais abnegados e inteligentes da empresa em que trabalhava nunca foi promovido. E quando “eu deixei a chefia devido ao derrame cerebral, a vaga que deveria ser dele foi dada a um funcionário reconhecidamente menos qualificado...” E concluiu: “E mais da metade da população brasileira é de negros e mulatos...”
Nunca haviam ido à última estação. “Sonho que na última estação vou encontrar lindos pássaros e anjos. E, assim, acabar com a minha tristeza”, desabafa Saffira. Ricardo, que era ateu (ou à toa, como brincava) disse que pássaros ela poderia encontrar, mas anjos nunca. Ela era levemente católica e não gostou do comentário. Mas não chegaram a discutir, pois ambos não davam muita atenção para religião. “Depois da morte do meu namorado sou menos que um fragmento do
que já fui...” – assim ela resumia o que sentia. Ricardo desculpou-se e, com um olhar meigo, diz que "a dor nunca se separa da memória..."
O trem foi engolindo trilhos até que surgiu a última cidadezinha da linha. Conheceram casas e ruas superficialmente, mas gostaram do que viram. Especialmente do silêncio do início da madrugada. Passearam pelas ruas bem cuidadas e Saffira imaginou as coisas sinistras que estariam acontecendo dentro de certas casas... E coisas belas também – disse o otimista Ricardo. Entrelaçaram as mãos e se afastaram bastante da estação. Ricardo tentou trocar de lado (pois constrangia-se com o não funcionamento da mão direita). Ela se antecipou: “observei que você tem um pequeno defeito na mão. Mas quem não tem algum defeito?” Ricardo desistiu de trocar de lado e arriscou a pergunta contida: “vamos procurar um hotelzinho, já que perdemos o último trem...” Saffira, num ímpeto, separou as mãos e retrucou: “você é como todos os homens. Só quer aproveitar da situação!” Ele, constrangido, afirmou que não. E concluiu argumentando que o trem só voltaria a circular às 5 horas da manhã. Saffira concordou desde que dormissem em quartos separados. Ele assentiu com a cabeça e encontraram um hotel barato.
No momento da inscrição no balcão, para a surpresa de Ricardo, ela pediu para o atendente um único quarto. Mudos, sentaram-se na estreita cama de casal. E Ricardo a tranquilizou: “não vou forçar a barra...” e foi fazer a barba. Ela adormeceu e ele ficou minutos admirando, extasiado, o rosto meigo de Saffira... De repente, ela ergueu os braços, abraçou-o e disse suavemente: “eu não faço sexo há anos. Seja delicado comigo...” Ricardo enlaçou-a com toda a ternura e sentiu a adolescência em seus braços. Fizeram amor inicialmente com timidez; em seguida, desenfreadamente... Depois, exaustos, relembraram os momentos vividos no trem. E ela observou: “não me faça perguntas sobre o passado, por favor...”
Ricardo, timidamente, se encheu de coragem e perguntou se eles poderiam viver juntos, ter filhos, uma casa... E se a diferença de idade seria um obstáculo? Ela o interrompeu colocando a delicada mão em sua boca, acrescentando que “a diferença de idade nada representava, mas era muito cedo para uma resposta." Lembrou que às 8 horas deveria estar no trabalho, virou-se e dormiu. Ele vibrou com uma perspectiva positiva e não conseguiu dormir. Seis horas. O modesto hotel não
possuía serviço de quarto. Ele olhou aquele corpo franzino, pleno de juventude, beijou-lhe a face e desceu em busca de uma padaria.
Depois de muito procurar, finalmente encontrou o pastel de cenoura que Saffira tanto desejava. Comprou três e retornou com chá preto bem quentinho para dois. Saffira ficou radiante com os pastéis de cenoura e insistiu para que Ricardo comesse um. Emocionada, disse brincando que ele, agora, era o mais novo natureba da paróquia...
Arrumaram-se e deixaram o hotelzinho. Tomaram o primeiro trem que deixava a estação, e como os passageiros ainda sonolentos, quedaram-se abraçados num banco. Chegando ao final da linha, no centro de Porto Alegre, antes que Saffira se dirigisse para o trabalho, Ricardo pediu para irem à uma lanchonete. Sentaram e ele pediu uma lata de cerveja que bebeu com indescritível satisfação. Ela o criticou por consumir álcool àquela hora e ouviu a seguinte resposta: “para que se privar de pequenos prazeres? Afinal, a vida é como as rodas de um trem. Nunca está no mesmo lugar...”
Ela balançou a cabeça discordando e pediu que ele a acompanhasse até o ponto do ônibus para o trabalho. Eles andaram lentamente e, antes que chegassem no outro lado da rua, um pesado caminhão os atropelou violentamente. Os dois ainda se olharam por segundos e ele balbuciou: “não disse que a vida nunca está no mesmo lugar. Agora ela cede lugar para a morte." Ao que Saffira responde com um restinho de vida: “o metrô não será mais o mesmo...”.
COMENTÁRIO - Elizabeth Mascarenhas disse: Este conto instigante faz lembrar o filme alemão "Corra Lola, Corra!", é claro com as devidas diferenças. Mas o final é tão dramático quanto "Lola". Essa dupla de anti-heróis leva o leitor a sofrer constantemente tendo pitadas de intensa ternura como na frase dita por Saffira: "seja delicado comigo, pois eu não faço sexo há anos..." Confira. Parabéns, Ronaldo.
A ESPERA
Conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
Eles estavam a menos de sei
Agradeceu ao motorista e acenou para janelinha onde ela estava. Cabeça descoberta, cabelos longos despreocupadamente despenteados, ela acenou alegremente, mostrando um par de olhos verdes seguidos de um sorriso alvo e tímido.
Com essa perda de tempo ele perdeu o ônibus, mas não se arrependeu. O seu bilhetinho dizia, em letras apressadas: "Menina encapuzada de alegre sorriso - ele se encantara com o sorriso que vira - ficaria feliz em corresponder-me contigo. Só tenho e-mail. Nada de importante tenho a revelar, por isso não tenho Facebook. Envie o teu e-mail e vamos ser amigos! Boa viagem e desejo-te os mais lindos sonhos!" E rabiscou o endereço de e-mail.
Ela, curiosa, ansiava chegar em casa para digitar algumas palavras para aquele misterioso rapaz. Não tão rapaz assim. Ele tinha cabelos grisalhos e a mesma idade de Richard Gere, 53 anos. Mas estava longe, muito longe do charme do famoso ator. Era jornalista e se aposentara precocemente por conta de um AVC que o deixara levemente manco. Levemente. Usava discreta bengala de aparentes pequenos nós de madeira; igual àquelas que os exploradores ingleses apareciam nos filmes...
Ela escreveu no seu e-mail: "Oi! meu nome é Vitória, tenho 23 anos, curso Engenharia e adoro ler e curtir música. Você me encontrou num momento difícil. Passo por uma dor quase insuportável; perdi minha cadelinha vitimada pelo câncer e estou em dúvida sobre o meu namorado... que é um tanto sufocante”. E você? Fala- me um pouco de ti.
O e-mail de Álvaro não demorou. Enviou informações básicas, mas sinceras. Ele pedia o celular dela, acrescentando que não era sufocante e aceitaria ser apenas um amigo cordial, ressaltando a diferença de idades. Adorava o bom cinema, na telona e na telinha, e também a Fórmula 1 quando havia brasileiro correndo. Contou que a sua fantasia era idealizar uma "máquina do tempo", tal era o seu temor pela velhice. Acrescentou que amava a Música Popular Brasileira. Especialmente Paulinho da Viola; o incrível Raul Seixas; Caetano; Gil; Bethânea; Elis; o falecido Reginaldo Rossi (observa que "Mesa de Bar" é um hino); Martinho da Vila; o maravilhoso Bezerra da Silva (e seu espirituoso "Sequestraram a minha Sogra"); o genial Milton Nascimento e o inigualável Chico Buarque com a sua trágica “Construção”, “Mulheres de Atenas” e “Cálice”, entre tantas obras-primas... E, lamentavelmente, hoje Chico parece ter "esquecido" de colocar em prática a inspiradíssima canção "Vai passar" em que ele "lamentava as forças dos 'anos de chumbo' submeter o Brasil a tenebrosas transações que agora se repetem, inclusive, por meio do seu inseparável partido... Que o poeta, com o seu inquestionável conceito, poderia exigir a refundação...
Mas a exemplo de Vitória, que já havia confidenciado sua admiração pelo Rock, Álvaro demonstra o seu gosto pelo Jazz e, consequentemente, pelo Rock. Não se esquecendo de mencionar Chuck Berry (um dos pais do formidável rítmo); Little Richards; as inesquecíveis Mamma (lésbica assumida "naquele tempo", que elevou o Jazz às alturas); a inigualável Billy Holliday; Ela Fitzgerald; o genial e falecido B. B. King; Rick Valley (o portorriquenho que compôs "La Bamba", outro hino); e, finalmente, ressalta o "genealíssimo branco" Elvis Presley. E solta uma frase de efeito, talvez para impressionar: Elvis vive!
Como Vitória talvez tenha observado, Álvaro era "antigo" pelas suas preferências. Se bem que ele salientava que a música boa não tinha idade. Vitória negou o celular, por enquanto o e-mail bastava - disse. “Realmente, gosto das mesmas coisas que você, especialmente escrever. E observei a sua discreta e elegante bengala. Diferente daquelas chamativas de metal. Um charme! Onde a conseguiu? Foi num filme? Quanto a estar longe da figura do Richard Gere, é muita humildade sua. O cabelo branco e farto como o dele já é uma semelhança... Não para levar-te à Hollywood, é claro (he, he, he)”, sentenciou brincando.
Noite-sim-noite-não o papo virtual continuava sem a mínima insinuação de um reencontro... O papo virou hábito, sempre de madrugada, até o galo cantar. Um dia ela deu uma dica: estaria apreciando a Parada Gay, domingo, no Parque Farroupilha. Ele foi e com alguma dificuldade avistou-a com aquele encantador cabelo desajeitado e longo. Mas não ousou aproximar-se, temendo a rejeição. À noite, pelo e-mail habitual, ela perguntou o que tinha havido? Ele respondeu que simplesmente não a encontrou devido à multidão.
E seguiram trocando e-mails revelando identidades e diferenças que os ligava. Consumiram-se seis meses. Ele viajaria por um longo período e, com medo de uma relutância, fez mil rodeios para, finalmente, pedir que no dia da sua partida ela comparecesse, às 10 horas, no Parque Farroupilha, conhecidíssimo centro de lazer de Porto Alegre. Ele estaria lá para se despedir...
Domingo. Dez horas em ponto. Lá estava Vitória, apreensiva, olhando para todos os lados, apreensiva... Álvaro, de trás da coluna de um prédio, hesitava, hesitava... Foi quando pegou um pedaço de papel, rabiscou algumas frases e entregou para um garoto, alcançando-lhe uma gorjeta. O bilhete dizia: “Você está linda, vou recostar- me na janelinha do ônibus e sonhar que você veio me ver por um breve momento... Sonhar será melhor... Sonhar com os teus longos cabelos sempre informais e teus olhos penetrantes e felizes. Vou fingir, por um instante, que o ônibus é uma Máquina do Tempo..."
Vitória leu e releu o bilhete. Finalmente, guardou-o pensativa. Por coincidência chovia e ameaçava gear. Vestiu o capuz e dirigiu-se para casa. No terminal do ônibus, uma voz murmurou o pedido de horas. Vitória respondeu de maneira inaudível, tomou o seu assento e pensou na célebre frase do Pequeno Príncipe: "cada um é responsável pelo que cativou...”
COMENTÁRIO - Raquel Soares disse: " Trata-se, sem dúvida, de um homem a caminho da velhice e que não sabe lidar com o envelhecimento. E não reconhece a necessidade de uma solução. Ele busca mulheres novas e o diálogo se mostra infrutífero pelo distanciamento das gerações. Neste conto, muito bem escrito, parece que - no último momento - o cara toma consciência da inutilidade de uma aproximação física e some, como sempre num sonho embarcado não em um ônibus mas numa hipotética "máquina do tempo".
DIVINA PROSTITUTA
conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira

Ela entra seminua no quarto mal iluminado. Aparentemente, nenhum sinal de vida. Aos poucos, gemidos de satisfação enchem o ambiente. O homem de meia-idade, paraplégico, exulta com a chegada de Ana Clara. Com voz suave, ela o cumprimenta e lhe dá um suave beijo na face. Ela toma a iniciativa estreitando-o contra si. E inicia uma das sessões programadas para a semana.
Já agora, nua, Ana Clara ergue uma das pernas do seu "cliente" (entre aspas por que ela não gosta da palavra "cliente"). Ana Clara prefere a palavra irmãozinho. E é assim que ela trata os seus muitos irmãozinhos. Ela aceita uma oferta mínima pelos seus serviços, quase uma esmola; e se a família não tem recursos, Clarinha - como todos a tratam - nada cobra.
Persegue os passos de São Francisco de Assis, como devota e praticante. Só que, ao invés de repartir o pão, Clarinha reparte o seu corpo. A igreja Católica ao saber disso, passou-lhe uma reprimenda pública divulgando no jornal a "imoralidade dos atos", no que foi seguida pelos pastores evangélicos…
Ao que Clarinha deu de ombros justificando o que faz como uma obra da mais alta humanidade... E se Deus existe - afirma - estou mais perto dele que estes religiosos hipócritas. E ergue a perna inerte do seu irmãozinho praticando-lhe um delicioso boquete, seguido de uma estimulante penetração. O que ela consegue cavalgando o parceiro com comovente habilidade... Após alguns minutos de santificada paciência, o irmãozinho geme de tesão e ejacula. Embora não tenha conhecimento teórico das práticas que fisioterapeutas e psicólogas - especialmente na Europa - desenvolvem com voluntárias e prostitutas na ajuda a cadeirantes para satisfazer a sexualidade, Clarinha intuitivamente faz um trabalho semelhante...
Ela não abandona a cama rapidamente como uma profissional convencional. Ela passa as mãos com suavidade sobre o corpo do parceiro, beija-o pelo rosto, relaxando-o... Só então dá por encerrada a sua missão. Despede-se e vai ao encontro do familiar do irmãozinho, quando recebe módica compensação; e segue a sua inusitada rotina. Mas há uma conspiração em andamento contra Clarinha.
Pastores influentes que dominam - e muito - as consciências das pessoas da pequena cidade do interior determinam uma virada na vida de Clara. Após os cultos, os pastores se deslocam em procissão até à frente da casa dela e passam a hostilizá-la: "Acabem com a Messalina!"; "Basta de Imoralidade!”; "Esta Mulher Ofende a Deus!"; "As Famílias que Recebem os Serviços de Clara são Impuras!" E o cartaz mais agressivo dizia: "Pro Inferno os Aleijados de Clara!" Só faltava jogá-la numa fogueira. Se bem que alguns fundamentalistas bem que gostariam... Sua casa foi apedrejada e sua saída à rua era um tormento.
Para a tristeza dos seus irmãozinhos, Clarinha teve que parar suas atividades. Eles entraram em depressão e muitas famílias ousaram levá-los, furtivamente, a lugares insuspeitos ao encontro de Clara... Mas também não durou muito. Foram descobertos e a punição foi bárbara: os doentes foram impedidos de sair de casa e Clarinha embarcada, à força, num trem de destino ignorado. A cidadezinha, para a alegria dos pastores, ficou em aparente paz. Os comentários cessaram e os paralíticos, estigmatizados, ficaram trancados em casa…
Passaram-se 4 anos e, súbito, um terremoto devastou a cidade, aleijando parte dos moradores. Penosamente tentavam reconstruir suas casas. O que mais se via nas ruas eram pessoas em cadeiras de rodas. Entre os voluntários que desciam do trem lotado de socorristas e material de sobrevivência, uma figura conhecida: Clarinha pronta para ajudar. De óculos escuros, ninguém a reconheceu.
Enfermeira de recente formação, Clara não descansava. Mas sabe-se lá como, alguns dos antigos irmãozinhos a reconheceram. E a notícia se propagou. E os tetraplégicos, paraplégicos e feridos terminais reuniram-se no que restou de um templo e decidiram: "vamos chamar Clarinha para diminuir as nossas dores!" E a aclamaram como Santa Clara dos Desvalidos! E muitos irmãozinhos pediam, discretamente, que ela voltasse à antiga atividade. Clarinha dizia que sentia muito, mas deveria voltar para a sua nova cidade dentro de uma semana. Mas que ia pensar... Em todas as casas onde houvesse um enfermo, ostentavam na frente uma cadeira de rodas ou uma muleta iluminada por uma vela.
Durante esta derradeira semana na cidadezinha ela ainda trouxe algum conforto sexual para uns poucos irmãozinhos, especialmente os mais deprimidos. Mas a intolerância religiosa foi rápida. Liderados por pastores enfurecidos, uma multidão fanática raptou Clarinha; agrediram lhe, raparam-lhe os cabelos, e jogaram- na seminua na estação ferroviária. Em volta do seu pescoço penduraram um cartaz onde se lia: "NÃO VOLTE NUNCA MAIS, SATANÁS!”
A notícia se espalhou rápida e a cidade toda logo estava na estação. Uns apoiavam a fúria dos pastores; e outros, temerosos de tomar posição, apenas olhavam o corpo indefeso de Clara. Um menino, de uns oito anos, piedosamente cobriu o corpo com um pedaço de papelão. Uma chuva fininha foi engrossando, mas ninguém arredava pé.
Foi quando surgiu uma coluna de cadeiras de rodas que abriu caminho em direção à Clara. Os cadeirantes acolheram-na com carinho, vestiram-na, ajeitaram o que restava dos seus cabelos e conduziram-na para um vagão do trem. Suplicaram ao maquinista e outros funcionários que a tratassem bem e deixaram uma robusta sopa com a recomendação de que a deixassem repousar até a cidade grande. A locomotiva partiu deixando os participantes da coluna de cadeiras de rodas tristes e cabisbaixos…
A chuva engrossou e as ruas viraram um lamaçal. Muitos voltaram para reconstruir suas casas. Poucos reconstruíram suas mentes. A coluna de cadeiras permaneceu durante algum tempo na estação até o trem sumir no horizonte. Uma mulher, entre os cadeirantes, murmurou: "lá se vai a verdadeira Santa Clara..."
COMENTÁRIO: Lúcia Amarante disse - Bela fábula, Sr. Ronaldo. É claro que dificilmente será encontrada uma prostituta assim na vida real. Mas passemos à vida ficcional que é mais agradável. Que bom seria se a humanidade tivesse em seu coração a incrível compaixão de Clarinha. E a irracionalidade dos religiosos desaparecesse da face da Terra. Não acredito em santas e santos, até porque eles nada fazem pela humanidade
despedaçada... Mas foi de bom gosto a frase final: "lá se vai a verdadeira Santa Clara..."
Seria uma alusão à freirinha Clara que tanto ajudou São Francisco de Assis?
despedaçada... Mas foi de bom gosto a frase final: "lá se vai a verdadeira Santa Clara..."
Seria uma alusão à freirinha Clara que tanto ajudou São Francisco de Assis?
CONTO-VERDADE
CHICO BUARQUE ESQUECEU
DAS "TENEBROSAS TRANSAÇÕES"
(texto de Ronaldo Soares de Oliveira, que adora o Chico e pede-lhe desculpas se o ofendeu.)
Refiro-me à genial canção “Vai Passar”
em que Chico condenava as “Tenebrosas
Transações” ocorridas nos anos 70, os
“Anos de Chumbo”; e agora fecha os olhos
para as condenáveis transações que o PT,
juntamente com outros partidos que
sempre roubaram…
Só que o PT, semeador da esperança e
da honestidade, não poderia rasgar a sua
sagrada bandeira e menos ainda adotar
um desprezível populismo…
Logo, do alto do seu inegável conceito,
o Chico deveria exigir a refundação do
partido.
Para o excelente Chico Buarque que não se exprime só para ficar mais rico.
Que não compõe canções com subalternos fins, para atrair atrizes; para papar manequins;
que não importa carro pra sair na Caras; que não pega seu fã pra Zé Mané; que arriscou o
couro sob a ditadura; que da canção social não foge; não se exime; que muito embora
tenha uma cara de bobo, não é nenhum boneco da Globo.
que não importa carro pra sair na Caras; que não pega seu fã pra Zé Mané; que arriscou o
couro sob a ditadura; que da canção social não foge; não se exime; que muito embora
tenha uma cara de bobo, não é nenhum boneco da Globo.
Quando os Renans proliferam, quando os Cunhas chovem, mirar-se no exemplo de Chico era melhor pros jovens. Pena que a juventude em boa parte esteja tropeçando na boca, rezando noutra igreja como que a confirmar a visão curta de fã, sentadinho no colo do sinistro Tio Sam. É difícil lutar contra tanta desatenção; contra tanta renúncia. Contra todo um sistema colonial e perverso, contra todas as forças do infindo universo.
Como arrostar o lixo que nos chega do frio? Sem vestígios sequer de uma virtude-brio? Bem ou mal, o Vietnam com todo o seu atraso, nos ensinou o que se faz no caso. Mas será que aprendemos? Levantamos a saia quando o gringo safado invadir nossas praias? É de temer que um dia isso acabe numa zona; gerenciada, quem sabe, por madame Madonna...
Voltando ao grande Chico: é bonita a gratidão ao PT que um dia plasmou as idéias do poeta; mas quando Lula e o partido erraram de rumo, virando tudo pelo avesso como uma quadrilha idêntica a todos os outros (ou pior) não tava na hora, Chico, de abandonar o barco? Ou tentar aprumar a estrela dantes tão altiva? Ou, então, recolher-se às suas lindas canções?
Mas preferiu calar-se. Você, Chico, um intelectual politizado, que não abandonasse o partido mas bradasse pela sua refundação, lembrando um dos seus mais perfeitos e significativos versos celebrizado na incrível canção "Vai Passar"; em que vomitava a contundente frase que lamentava "afundar o Brasil em tenebrosas transações onde seus filhos erravam cegos pelo continente." E agora, igualmente, o PT de que você não se desgruda e, aparentemente, nem faz força para mudar é engolido pelo mais atrasado populismo ao invés de dar consciência de classe aos trabalhadores...
Aliás, como consequência, o PT sofreu uma surra nas últimas eleições municipais em todo o Brasil, sendo derrotado inclusive no ABC paulista, seu berço natal.
Observação: no passado fui um "petista de carteirinha" tendo, inclusive, estendido faixas de propaganda eleitoral no meu muro...
O ÚLTIMO ORELHÃO conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
O vilarejo estava situado nos cafundós da Amazônia. Luz elétrica não existia e celular não alcançava a região. Ou melhor, havia um orelhão ali plantado há mais de 10 anos, funcionando sem a necessidade de fichas... Mas ninguém o usava, pois não havia para quem ligar. E o aparelho era cuidado como uma relíquia, pois não tinha quem lhe fizesse manutenção; e aparentemente estava esquecido de qualquer empresa de telecomunicações, talvez por considerarem algo obsoleto ou por piedade daquela gente tão miserável.
Até que um dia formandos de uma faculdade de medicina e de odontologia lá chegaram na condição de voluntários. Deveriam ficar por duas semanas, mas lá permaneceram seis meses tal era a necessidade de saúde, especialmente bucal. Reduziram a mortalidade infantil, ensinaram métodos de higiene e alimentação saudável com a construção de hortas que entusiasmou a todos...
Luciana, que era urologista, ensinava hábitos até então desconhecidos pela comunidade. Promovia aulas de sexologia desmitificando tabus como a virgindade. Suas aulas eram frequentadíssimas e ela conseguiu atrair os homens, sempre arredios. Como única ligação com a civilização, o orelhão era concorridíssimo. Os voluntários faziam fila para comunicar o adiamento de sua permanência aos familiares e à universidade. Mas se queixavam de que o aparelho estava a cada dia mais fraco, quase inaudível...
Quem mais entendia do orelhão era Pedro, um homem simpático de meia idade, de poucas palavras e personalidade impenetrável. Suas únicas palavras, sempre, eram sim e não; não importando a pergunta. Era contraditório. Se lhe perguntassem se o aparelho estava bom, ele poderia dizer que sim e, no minuto seguinte, responder que não... Pedro morava só, distanciado dos demais, fazia a
sua própria comida e, surpreendentemente, sabia ler e escrever. Acredita-se que tenha aprendido, há uns 20 anos, com um explorador inglês que também deixou-lhe de presente “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, único livro que Pedro lia e relia com obsessão.
Luciana, a urologista, soube da história de Pedro e resolveu procurá-lo, apesar dos senões de toda a comunidade. Ainda assim ela foi. A porta da choupana não se abriu mesmo com as muitas batidas desferidas pela médica. Luciana fingiu que desistira e a uma certa distância, por detrás de uma árvore, observou que o solitário Pedro a vigiava por uma fresta da janela. Ela deu meia volta e rumou resoluta, em direção à choupana. Bateu, bateu, bateu e nada... Então, sabedora da história do livro único, pôs em execução uma ideia: começou a emitir conceitos sobre o livro "A Origem
das Espécies" que, surpreso, Pedro respondeu enriquecendo os tais conceitos. Para, em seguida, abrir a estreita janela para ouvir e se fazer ouvido...
Luciana pediu que ele abrisse a porta para que pudessem conversar melhor. Ele pensou, pensou; demorou uns cinco minutos e, com reservas, abriu a portinhola. Não havia onde Luciana pudesse sentar e ela puxou conversa assim mesmo. Hesitando em responder, ele disse que só falaria sobre o livro ou, então, que ela fosse embora! Ela concordou, mas perguntou se ele gostaria de ler outros livros? A resposta foi um sonoro não; repetindo que aquele seria o único livro da sua vida. E, assim, passaram mais de três horas lembrando passagens do livro... Pedro dava uma aula sobre a "Origem das Espécies", afinal ele conhecia o livro de Darwin de cor.
Quando Luciana insistiu que era interessante ele tomar conhecimento de outras obras, aproveitando a sua inteligência, ele se irritou e mandou-a embora. Ela perguntou se poderia voltar no dia seguinte? A resposta ficou atrás da porta fechada. Mas foi um progresso. Ela conseguira quebrar o gelo daquele homem solitário. A comunidade e os colegas de Luciana quase não acreditaram. No dia seguinte, sabedora dos hábitos de Pedro, ela foi procurá-lo. Ele acordava às 5 horas, um pouco antes do sol nascer, tomava um banho de rio e preparava seu próprio café, ou melhor, chá, que consistia de 2 bananas, 1 laranja, 1 naco de coco e uma caneca de chá...
Luciana o surpreendeu quando ele ainda não terminara o desjejum numa mesa improvisada. Antes que Pedro reprovasse a sua visita, ela se adiantou e perguntou de um fôlego só: "E o que foi feito do Beagle, o valente navio de Darwin?" A pergunta o embaraçou ficando sem resposta. Luciana, então, com muito tato observou: "É pra isso que servem outros livros..." E o que aconteceu com o navio? - pergunta Pedro cheio de curiosidade. Ela conta o destino do navio reafirmando a utilidade da leitura. Pedro lamenta não ter outra cadeira e oferece a sua. Luciana agradece e diz esperar que ele terminasse o chá. Depois, sem que Pedro se dê conta, eles já estão falando de outros assuntos... E, animadamente, ela convence- o, já sem muita persuasão, a conhecer os seus colegas.
Um dos voluntários, que é psicólogo, surpreende-se com a inteligência de Pedro, considerando-o nada menos que um superdotado. Todos os voluntários trouxeram, além dos livros técnicos, boa literatura nacional e estrangeira. E de bom grado presentearam Pedro com muitos livros, que ele foi devorando com um apetite invulgar. Sempre a seu lado, Luciana foi dirimindo as dúvidas que surgiam... E, às vezes, Pedro inventava dúvidas só para ficar ao lado dela. Faltavam apenas três dias para os voluntários retornarem. E Luciana comunicou a Pedro, prometendo enviar-lhe outros livros. Ele lamentou a decisão e pediu que ela ficasse, o que seria impossível - ela disse -, argumentando que tinha inúmeros compromissos em sua cidade. Além, é claro, dos relatórios que a universidade esperava.
Duas lágrimas discretas verteram dos olhos de Pedro e outras foram escondidas de Luciana por seus rápidos passos em direção à mata... E lá ficou, sem voltar para choupana. Luciana o procurou, em vão. Finalmente, depois de uma triste reunião de despedida, em que aquela pobre comunidade do fim-do-mundo demonstrou todo o seu agradecimento aos voluntários, eles embarcaram na lancha que os levaria ao continente...Não encontrando Pedro, Luciana deixou-lhe um carinhoso bilhete debaixo da porta da choupana, que dizia: "Meu querido e inesquecível amigo Pedro, lamento não ter podido me despedir de ti. Lamento de verdade! Não vou esquecer-me da pureza que encontrei aqui... E principalmente do ser humano maravilhoso que você é. Que bom se a cidade grande um dia adquirir a simplicidade e a grandeza de caráter desta comunidade... Por isso, meu amigo, é bom que permaneças aqui para
que não percas esta qualidade tão rara. Eu quem deveria ficar aqui... Sei lá... Vou te telefonar. Cuida bem do orelhão, ele é teu. Um saudoso abraço! Luciana”.
Luciana, logo que chegou à cidade ligou para a comunidade. Chamaram Pedro, que veio correndo e conseguiu dizer apenas sete palavras antes da ligação ir enfraquecendo, enfraquecendo, até desaparecer de todo. Naquele momento, em algum lugar, uma empresa de telecomunicações acabava de desativar o que eles chamaram de "o último orelhão".
Mas Luciana ainda conseguiu ouvir e gravar no seu celular aquelas sete palavras: "Luciana, que saudades! Como eu te amo...” E lágrimas rolaram dos seus olhos, como Alice, do País das Maravilhas, ao despedir-se do Chapeleiro romântico; e o pensamento a deslocou para aquela comunidade do fim-do-mundo...
Minha advogada Alice, assista o filme A Caça. Reserve um tempinho...
conto-verdade
ESTUPROS, UMA BOA LEI
E UM JUÍZ CONTRADITÓRIO
(Texto de Ronaldo Soares de Oliveira, publicado em 02/12/2014, no blog "Classificados Grátis e muita Bronca" e atualizado)
A violência sexual contra as mulheres (leia-se estupro) nasceu com o "decobrimento do
Brasil". Neste primeiro momento os portugueses estupravam as indígenas até valendo-se da poligamia daquele povo. Com a importação dos escravos negros caçados na África foi a vez da mulher negra servir à cozinha e à cama do senhor igualmente estuprada.
Durante certo tempo no Brasil, há cerca de 25 anos, o marido tinha direito de usar o corpo da mulher (mesmo contra a vontade dela); e há uns 10 anos no Direito Brasileiro o estuprador que casasse com a estuprada, sua vítima, ou ela casasse com um terceiro estava extinta a punibilidade do crime. Ou seja, arranjando um marido para moça, estava tudo "resolvido". Então, o ministro Gilmar Mendes, do STF, derrubou esta lei absurda impedindo a extinção da pena, o que foi um grande ganho para o convívio social.
Mas o ministro é um tanto contraditório. Neste ano de 2016, o mesmo magistrado Gilmar Mendes concedeu habeas corpus para o médico Roger Abdel Massih, condenado a 278 anos por 58 estupros contra pacientes suas durante tratamento de fertilização artificial. Diante dessa medida inusitada, a jornalista Mônica Iozza publicou no instagram a seguinte expressão de opinião: "Não sei o que esperar de Gilmar Mendes"... dentre outras farpas não configuradas como "crime de imprensa".
Foi o suficiente para o ministro Mendes processá-la e obter ganho de causa por determinação do juíz Giordano Resende Costa. A jornalista foi condenada a pagar
R$ 30.000,00! Pelo que centenas de pessoas, através das redes sociais, estão protestando. Mônica vai recorrer.
E agora, em março de 2017, Gilmar Mendes xinga o procurador da República Rodrigo Janot "por haver permitido o 'vazamento' de alguns depoimentos de executivos da Odebrecht. E sugere que todas as provas - duramente coletadas aos mega corruptos - sejam invalidadas(!) E qual o problema que os jornalistas as revelem? Os acusados "corariam" de vergonha antecipadamente? Renan Calheiros, Jucá, Sérgio Cabral e dezenas de ladrões, inclusive os incustrados no Planalto, apostam nesta providência...
E por uma questão de recato, segundo o Procurador da República Rodrigo Janot, não conceda habeas corpus a corruptos - seja em caso cível ou criminal - cujo advogado tem como funcionária a sua mulher, como no caso Eike Batista. Isto não pega bem, nem é juridicamente permitido...
Para o bem do Brasil, Ministro, continue produzindo leis como a que considerava extinta a pena para o estuprador que casasse com a sua vítima ou se ela esposasse um terceiro. O
contribuinte agradece...
E por uma questão de recato, segundo o Procurador da República Rodrigo Janot, não conceda habeas corpus a corruptos - seja em caso cível ou criminal - cujo advogado tem como funcionária a sua mulher, como no caso Eike Batista. Isto não pega bem, nem é juridicamente permitido...
Para o bem do Brasil, Ministro, continue produzindo leis como a que considerava extinta a pena para o estuprador que casasse com a sua vítima ou se ela esposasse um terceiro. O
contribuinte agradece...
Quanto às mulheres espancadas, elas encontram socorro na Lei Maria da Penha que agora
ganhou um reforço: a mulher espancada que comunicar a agressão à polícia já não pode
retirar a queixa e o marido espancador é obrigado a ficar distante da esposa por 300 metros.
De avanço em avanço a felicidade e segurança das mulheres está prosperando. Que o digam as feministas...
Comentário - Luis Rafael Junqueira disse: "Às vezes a toga sobe à cabeça do Ministro Gilmar Mendes. Aliás, a toga - diga-se a vaidade - sobe à cabeça de muitos juízes e não é motivada pelo vento..."
VIAGEM NO TEMPO PARA
ENCONTRAR CABRAL
texto registrado por Ronaldo S. Oliveira
E eles foram encolhendo... encolhendo... encolhendo...
texto registrado por Ronaldo S. Oliveira
E eles foram encolhendo... encolhendo... encolhendo...
Era um cientista de 35 anos. Obsessivo no que fazia, decidiu que faria uma "Máquina do Tempo". Trabalhou inúmeras noites e madrugadas. De dia cumpria 12 horas no emprego para compensar as folgas dedicadas ao seu projeto. Não se permitia tempo para comer adequadamente... Estava magérrimo. Depois de anos, numa manhã cinzenta ele concluiu a Máquina. Estava pronta. Reluzindo! Deixou um recado gravado anunciando o fato num canto do laboratório, pegou uma quantidade de comida e refresco desidratados e regulou a máquina para o século
16. Justo para o dia da chegada de Cabral no Brasil, pois era fascinado pelo feito do navegante português...
A máquina produziu um barulho ensurdecedor e sumiu rumo ao desconhecido. Após uma semana, pousou serenamente. Algo deve ter dado errado, pois estava cercado de carros e edifícios. Do litoral cheio de índios da Era Cabralina, nada!
Camuflou a sua máquina e resolveu perambular pela cidade. De repente, viu- se defronte a uma vitrine espelhada e surpreendeu-se. Havia adquirido uma aparência muito, muito mais jovem. Aproximou-se de uma banca de jornal e leu numa capa a seguinte data: 20/10/1914! Viajara cem anos... E rejuvenescera! Murmurou decepcionado: "Que droga! Estou longe do Descobrimento do Brasil." E logo conformou-se, pois a sua aparência perdera, pelo menos, uns 10 anos.
Perambulou pela cidade e, vaidoso, notou que chamava a atenção das mulheres... E acabou parando, aleatoriamente, numa fila de bonde. Meio sem jeito, perguntou à jovem à sua frente que idade ela daria pra ele? Vinte e cinco anos,
respondeu a moça com naturalidade. O seu corpo estremeceu e ele observou que o leve grisalho do cabelo desaparecera. E encorajado pela transformação, arriscou um convite: "Podemos passear um pouco?" Ela concordou e eles passearam pela cidade e foram parar num bar. No momento de pagar a conta, surpreendeu-se com a recusa do garçom em aceitar suas notas. Notas de um século depois... Dinheiro totalmente desconhecido.
A jovem pagou a conta e ele foi explicando o inexplicável para uma incrédula ouvinte. Como argumento definitivo, levou-a até a Máquina do Tempo convencendo- a em parte. Ela, numa atitude ousada, pediu para ele acionar a máquina, "para dar uma voltinha..." Como ele tinha esperança de presenciar a aventura Cabralina, não pensou duas vezes e, desta vez, ajustando os comandos e relógios minuciosamente, deu a partida.
E algumas semanas depois, a uma velocidade espantosa, a nave pousou a
250 metros das caravelas. A Máquina do Tempo e as roupas do casal de tripulantes encantaram os índios e maravilharam os portugueses que ficaram mais felizes ainda ao descobrirem que os visitantes falavam português. Logo se tornaram o foco dos olhares perplexos de todos. O litoral paradisíaco, índias e índios nus e portugueses afogados em fofas golas europeias, apesar do calor, faziam o contraste com a inusitada Máquina do Tempo.
Ao ser rezado a 1ª Missa, o frade afirmou, em solene sermão, que Deus fez descer um enviado celeste para coroar o Descobrimento... E todos se curvaram diante da Máquina do Tempo, a esta altura mais importante que a cruz. Mas um fato inesperado ocorreu. Em decorrência do tempo que regrediu os dois tripulantes da Máquina foram rejuvenescendo... rejuvenescendo... E viraram bebês, para a alegria dos índios e a fé dos portugueses!
Pero Vaz de Caminha, o escrivão da frota, escreveu para o Rei de Portugal: - Majestade! Saiba que o nosso esforço foi coroado de sucesso e abençoado por Deus que até enviou uma bola de ferro como presente e dádiva para a Nova Terra... E dois anjinhos lindos que "estão a encolher… a encolher..."
Ah! não esqueça de assinar o abaixo-assinado
CONTRA A MATANÇA DOS
ELEFANTES, essas doces criaturas.
RESERVE 10 SEGUNDOS E UM POUCO DE
BOA VONTADE PARA ACESSAR ESTE LINK.
Estão assassinando os ELEFANTES. Impeça! assinando o abaixo-assinado.
FOTO MEMORÁVEL, ocorrida em 14 de agosto de 1945 no centro de Nova Iorque quando todos comemoravam o fim da 2ª Guerra Mundial, o marinheiro Mendosa, retornando recentemente do inferno do Pacífico e tomado pela euforia das comemorações do fim do conflito, enlaça uma enfermeira desconhecida, de nome Greta Fridman, e a beija intensamente. O fotógrafo sortudo Alfred Eisenstaedt, que estava por perto deu o oportuno clic, uma sorte incrível! Se bem que o beijo do americano ajudou no flash: dizem que ele e a desconhecida beijaram-se sem respirar durante 2 minutos. O fotógrafo já faleceu e a dupla de beijadores ainda vive e está com noventa e poucos anos. O famoso beijo valeu pelo fim da guerra... É um símbolo eterno... (RSO)
Céus! Hoje, pela manhã, na PUC, tive um encontro surpreendente: nada mais nada menos que a mitológica Angela Davis (nos seus joviais vinte e poucos anos). Cabelos belamente hirsutos berrando para o mundo que a negra e o negro existem e são belos...
Descubro que o seu nome é Priscila e cursa Direito na PUC. Continuo divagando de volta aos anos '60/70... Hoje Angela Davis tem 73 anos é professora, filósofa, palestrante e vive em Nova Iorque/EUA.
É uma lenda viva, recordação histórica que concedeu anos da sua liberdade pela causa negra da conquista dos Direitos Civis nos sofridos anos '60.
"A democracia da abolição é, portanto, a democracia que está por vir, a democracia que será possível se dermos continuidade aos grandes movimentos de abolição da história norte-americana, aqueles em oposição à escravidão, ao linchamento e à segregação. Enquanto a indústria do complexo carcerário persistir, especialmente contra as mulheres, a democracia norte-americana continuará a ser falsa (Brasil idem). Uma democracia falsa desse tipo reduz o povo e suas comunidades à subsistência biológica mais crua, pois ela os exclui da lei e da sociedade organizada”, explica Angela Davis.
A ativista do abolicionismo do século XXI é muito objetiva ao dizer que "é necessário desmantelar as ferramentas de opressão e não passá-las às mãos daqueles que a criticam. 'O desafio do século XXI não é reivindicar oportunidades iguais para participar da maquinaria da opressão, e sim identificar e desmantelar aquelas estruturas nas quais o racismo continua a ser firmado (Brasil idem). Este é o único modo pelo qual a promessa de liberdade pode ser estendida às grandes massas”, avalia Davis.
Angela Davis também é uma crítica ferrenha da situação das mulheres em cárcere (situação análoga ou pior no Brasil) e o assunto ganhou destaque desde a estreia da série Orange is the New Black, que trata do cotidiano de mulheres encarceradas. Em entrevista ao jornal Los Angeles Times, Davis foi questionada se assistia a série e qual era a sua opinião. “Eu não só assisti a série, mas li o livro de memórias [de Piper Kerman , que deu origem a série]. Ela tem uma análise muito mais profunda do que se vê na série, mas como uma pessoa que olhou para o papel das prisões femininas na cultura visual, principalmente filmes, acho que a série não é ruim. Há tantos aspectos que muitas vezes não aparecem em representações de pessoas nessas circunstâncias opressivas. Doze Anos de Escravidão, por exemplo, uma coisa que eu perdi naquele filme era uma sensação de alegria, alguma sensação de prazer, algum senso de humanidade”, critica Davis.
Ainda a imagino com o braço erguido e punhos cerrados - gesto político dos revolucionários Panteras Negras - que deveria ser replicado por milhares de negras e negros brasileiros infelizmente apáticos... Talvez um dia elabore um blog dedicado a realizar os sonhos de libertação da raça negra tão vilipendiada no nosso País. Porém é preciso negras e negros pensantes como imagino seja Priscila...
Dedico, pois, o medíocre texto abaixo - porque feito às pressas - à adorável Priscila a quem desejo imensa felicidade! Um afetuoso abraço! Ronaldo
MULHERES NEGRAS
O Brasil é um país descaradamente racista.
A população branca raramente lembra
dos 400 nos da terrível escravidão
a que o negro foi submetido. Procure uma
atendente negra num shopping ou numa loja
elegante da rua da Praia?
Você não encontra. O mercado costuma negar
oportunidade às moças negras, mesmo
as mais qualificadas... Com raras exceções,
como a matriz da Sonatura, no chique bairro
Independência: a loja acaba de contratar
duas jovens negras. E, exemplarmente, promete
continuar na contramão do insensato mercado.
Um detalhe: o negro está sumindo do
Carnaval. As cenas televisivas da festa neste
ano de 2017, em todo país, principalmente
no Rio de Janeiro - o berço do Carnaval criado
pelos negros -; se constatou isso. Os muitos
blocos eram compostos de esmagadora
maioria branca. Ainda salvam-se
porta-bandeiras, mestres-salas e parte das
baterias e seus maestros... Rainhas de bateria
são todas brancas, "celebridades" com as
exceções pontuais que não vivenciam o
ambiente das escolas... Até nesta grande
festa estão anulando os negros.
as mais qualificadas... Com raras exceções,
como a matriz da Sonatura, no chique bairro
Independência: a loja acaba de contratar
duas jovens negras. E, exemplarmente, promete
continuar na contramão do insensato mercado.
Um detalhe: o negro está sumindo do
Carnaval. As cenas televisivas da festa neste
ano de 2017, em todo país, principalmente
no Rio de Janeiro - o berço do Carnaval criado
blocos eram compostos de esmagadora
maioria branca. Ainda salvam-se
porta-bandeiras, mestres-salas e parte das
baterias e seus maestros... Rainhas de bateria
são todas brancas, "celebridades" com as
exceções pontuais que não vivenciam o
ambiente das escolas... Até nesta grande
festa estão anulando os negros.
É como alguém já advertiu: a mulher negra
também existe depois do Carnaval... (RSO)
A LONGA NOITE
DOS MENDIGOS
conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
Era uma pracinha aparentemente calma. Mal cuidada. Com arbustos e plantas elevados a mais de 2 metros. Suficientes para esconder uma pessoa. No caso, muitas pessoas. Eram cinco mendigos que faziam dali a sua morada numa precária cabana. Noite de sábado. O dia mais esperado por eles. 9h45m e nada. Todos apreensivos...
Do outro lado da cidade - a parte rica - cinco mulheres de classe média alta preparam-se para sair. Uma delas ainda encontra obstáculo para a saída. O marido questiona muito para aonde ela vai todos os sábados às 22 horas? Uma das amigas sugere o seguinte: "diga-lhe que você, com as suas amigas, todos os sábados prestam caridade aos sem-teto. E que esta tarefa meritória se estende até às
23h30m." O marido desconfiado acreditou.
Estavam todas livres para “Caridade Semanal", como elas denominavam aqueles sábados. Na pracinha dos mendigos, um alvoroço: cada qual se enfeitava como podia. Banhavam-se na pequena fonte de água limosa esverdeada onde também escovavam os dentes apodrecidos. E a barba, a parte mais sofrida, era feita com aparelhos rombudos encontrados no lixo... Enfim, todos prontos. Ou quase; ainda faltava estender os encardidos lençóis na grama cuidadosamente preparada para a ocasião. Agora, esperavam... esperavam...
De repente, faróis iluminam um trecho da pracinha e logo se apagam. Descem cinco vultos mal delineados pela ausência de iluminação. Mas isto não é obstáculo para os mendigos que logo reconhecem suas voluntárias presas. Cada um apossa-se de sua dama da Caridade Semanal e rolam, enlouquecidos, pelos lençóis... Elas apenas sussurram evitando um barulho maior para não chamar a atenção. Mas os sussurros e os movimentos libidinosos que lhes falta em casa sacodem arbustos e plantas como um temporal...
Finalmente, caem prostradas e satisfeitas. Recompõe-se e, agradecidas, deixam uma generosa esmola para cada um. Entram no carro, e de farol apagado, saem cuidadosamente rumo à estrada. Uma delas comenta: "cumprimos com êxito mais uma Caridade Semanal." E aceleram já aguardando o próximo sábado....
SULCOS & RUGAS
conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira

Ele era um cara feioso. Desses que nenhuma mulher queria olhar. Por que existe a feiura no mundo, perguntava-se? Conseguia relacionar-se sexualmente apenas com prostitutas. E ainda elas faziam comentários zombeteiros... Ele não aguentava mais tanta discriminação…
Resolveu, então, lançar seu olhar para as mulheres velhas. E viu que estava dando certo. A maior quantidade de sulcos e rugas tornavam as mulheres mais receptíveis. E ele acostumou-se com este relacionamento. Virou um vício.
E a felicidade estava estampada no seu rosto e nas mulheres que com ele tinham relações. E não eram apenas relações sexuais. Eram, sobretudo, afetivas. Antes de penetrar neste universo, ele tinha aversão às rugas e considerava os sulcos, verdadeiras feridas. Mas foi mudando de conceito e passou a contemplar os sulcos como minúsculos rios de onde vertiam lágrimas. E rugas como plácidas planícies com leves acidentes...
E os familiares e os poucos amigos indagavam-lhe de onde vinha tanta felicidade? Ele respondia com naturalidade que "surgia de sulcos e rugas". E que estavam à disposição de qualquer um que abandonasse os preconceitos contra a velhice. E afirmava: "a velhice é bela"! Os conceitos dele caíram na boca do bairro até que uma equipe de TV foi fazer uma reportagem sobre o precário saneamento da região. E ficou sabendo da existência do homem-feio que adorava sulcos e rugas. Não deu outra. A história foi para a TV e logo se tornou viral na internet.
A ideia se espalhou de tal maneira que do bairro ganhou a cidade; o estado e o país inteiro. Logo, logo a publicidade entrou em ação. E propagava produtos que prometiam "os mais belos sulcos e as mais sensuais rugas". A ideia chegou ao exterior e o homem feio teve a agenda lotada por entrevistas de rádio, jornal e tv. E logo virou exemplo de homem sedutor, protagonizando exemplo de conquistas de rugas e sulcos...
O mais surpreendente foi a virada na medicina estética. Os consultórios dos cirurgiões plásticos ganharam uma ávida clientela de mulheres (e de homens) em
busca de rugas e sulcos... A beleza tradicional caiu em desuso cedendo espaço para as novas beldades. E os salões de beleza, antes preocupados em esconder sulcos e rugas, agora faziam o maior esforço para ressaltá-los.
Certo dia o homem-feio deparou-se com uma jovem de antiga beleza que disparou a seguinte pergunta: “vamos sair pela noite? Não te custará nada..." Ao que o homem-feio respondeu secamente: "coloque uns sulcos e rugas na cara e conversaremos..."
A VIDA NÃO VALE A PENA...
conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
Regina adormecera sobre a bancada do computador. Às 7 horas da manhã sua mãe lhe trouxe o café com um belo sanduiche. Regina olhou, olhou e nada bebeu ou comeu. Olhos fixos na tela do micro, ainda ligado, assim prosseguiu por horas. No almoço nem olhou o prato. A mãe e os irmãos notaram, ainda, que ela se entusiasmava quando havia propaganda de bebidas e comida na tela... E ela parecia se satisfazer…
E assim passaram os dias, as semanas, os meses, os anos... Regina sempre com aparência sadia não desgrudava da tela. E quando lhe tiravam, à força, ela desfalecia e seus sinais vitais iam ao nível mais baixo. Chamaram um médico e ele não obteve qualquer diagnóstico. A mãe, por intuição, a reconduzia para o computador. E a jovem voltava à vida. A máquina nunca mais foi desligada... Certa vez quando faltou energia, Regina desmaiou imediatamente. E só se restabeleceu com o retorno da força. Providenciou-se uma bateria potente para que não ocorresse nova falha.
O caso chamou a atenção da comunidade científica e Regina foi transferida para um moderno laboratório onde lhe deram um supercomputador. A máquina em nada lhe mudou os hábitos alimentares. Mas como possuía um vasto programa científico, especialmente de física e matemática, isto aguçou o interesse da jovem. Aliás, não tão jovem assim. Ela já passara dos 40 anos e continuava com o rostinho de menina. Este fato chamava a atenção... E as habilidades que Regina
desenvolveu com a matemática e, especialmente, a física foram espantosas. Ela fazia diagramas de descobertas alarmantes. E um fato continuava intrigante: se "desacoplada" do computador ela desfalecia, mas conservava intacta a memória do que aprendera.
Levaram-na aos mais importantes simpósios, inclusive à NASA, e ela ministrava o seu conhecimento através de um telão, por escrito. Pois não dizia uma palavra. Seus olhos não mostravam expressão alguma. Mas era uma celebridade. Tornou-se visitante das mais importantes universidades do mundo. E chegou a ser alvo de um sequestro fracassado por parte de uma potência internacional... Sua segurança foi redobrada e seu livro mais famoso, "A Vida Não Tem Futuro", vendeu milhões de exemplares tornando sua família muito rica. Mas eis que um cientista muito ligado às atividades dela descobriu algo novo: Regina estava amando... Ou assim parecia. Ela ficava radiante quando surgia na tela a imagem de um rapaz humilde, negro, originado de uma publicidade onde ele aparecia empurrando um carrinho de supermercado para um casal que o aguardava na porta do carro. Ela salvara esta cena e a repetia incansavelmente.
E revelou no seu diário íntimo a seguinte frase: "Que cor bonita ele tem! É todo ternura... Como será a vida dele quando larga o carrinho?" E tentou, em vão, perseguir a rotina do carregador. O cientista que a observava criou, então, um holograma fiel do entregador o que emocionou muito Regina... Ela ficou encantada e, certa madrugada, na companhia do holograma deixou o computador pela primeira vez. E andaram por todo o laboratório. Ligou um aparelho de som que tocou a valsa Danúbio Azul repetidas vezes e bailou graciosamente com o holograma. Dançou... Dançou... e caiu exausta. De manhã, quando abriram o laboratório, encontraram Regina desfalecida e não conseguiram reanimá-la. O holograma estava curvado sobre ela como que desolado. Ela estava morta e com o rosto irreconhecível. Incrivelmente enrugado. Encarquilhado, com o peso de 165 anos.
UM MORTO PRECAVIDO,

MAS NEM TANTO...
conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
Toda a vida Alfredo provou ser um cara precavido. Até demais. Embora jovem, não havia passado dos 40, possuía dois seguros por morte. Para proteger a família, dizia. Mas o exagero maior ele cometeu três meses antes da sua morte. Morte, aliás, provocada por um detalhe.
Alfredo tinha pavor de ser enterrado vivo. Leu tudo sobre doenças que deixavam as pessoas desacordadas, como mortas, para ressuscitar depois. Fez, então, inúmeras experiências com potentes celulares que pudessem em suas ligações, ultrapassar quaisquer barreiras: túneis, subsolos, morros, banheiros de parede dupla, minas profundíssimas, etc. Tudo para pedir socorro. E um dos aparelhos - modelo japonês ultramoderno - passou em todos os testes.
O segundo passo foi a construção do caixão, confortavelmente acolchoado e provido de um pequeno sistema de ar-condicionado. E mais: provisão de alimentos desidratados, desses que os astronautas usam (para um mês); reserva de água, oxigênio e lanterna com pilhas “intermináveis”... Enfim, algo bem planejado. Pra nenhuma morte botar defeito.
Resumindo, a tal da "Síndrome da Falsa Morte" aconteceu. Alguém sugeriu a doação dos órgãos de Alfredo, que tudo ouvia, mas estava inerte, estremeceu! Nãooo façam isso! Pensou inutilmente... Mas a ideia logo foi afastada apostando na crença da ressureição de Alfredo e em socorrer-se das providências por ele elaboradas...
A missa foi de corpo presente e Alfredo gostou das palavras do padre, menos quando o sacerdote disse: "segue em paz para os braços do Senhor, meu filho!" Alfredo tentou se mexer, mas não conseguia falar um ai! No cemitério, suportou mais uma churumela de discursos. Foram cinco, fora a fala do padre. "Quanta mentira! Não fui tão bonzinho assim." Irritou-se, terrivelmente, quando sua mulher discursou, em lágrimas, sendo amparada pelo vizinho Joaquim - que ele sempre
desconfiou estar de olho em Josefina... Canalha! Pensou... O pior foi aguentar o discurso da sogra ("aquela jararaca!") que sempre o infernizou...
Finalmente, baixaram o caixão. Ele exultou quando ouviu de um dos coveiros que o cimento acabara. Isto é ótimo, "quanto mais tempo eu estiver na superfície melhor, pois posso ressuscitar e nem preciso usar o celular. Meto o pé na tampa do caixão e volto à vida..." Mas não foi assim. O cimento foi logo providenciado e Alfredo foi engolido por sete palmos de terra...
Passaram-se cinco, seis horas e Alfredo continuava inerte entregue à "Síndrome da Falsa Morte". Mas eis que a síndrome acaba! Que alívio! Alfredo toca no seu corpo para certificar-se de que estava vivo; come um pouco da comida desidratada (pois a fome era muita); bebe um suco esquisito, cuja fórmula disseram- lhe pertencer à NASA. E preparou-se para telefonar.
Tentou. Tentou. Tentou. E nada. Já preocupado, ligou para todos os amigos e para polícia. Igualmente, NADA. Começou a se preocupar. Acendeu o isqueiro, pois a energia da lanterna acabara. Desesperou-se! O oxigênio já estava rarefeito... No mesmo momento, na superfície, os noticiários de rádio e TV anunciavam que finalmente haviam inventado um sistema altamente confiável que impedia, de modo definitivo, as ligações de celulares para fora dos muros das prisões...
E o cemitério estava localizado exatamente no lado da penitenciária que adotou o eficaz sistema. E ALFREDO DEFINITIVAMENTE MORREU.
FRANJINHA
conto autobiográfico registrado por Ronaldo S. Oliveira
Iara tinha a mesma simpatia da atriz Anne Hathaway
Fim da tarde na Praça da Alfândega, Porto Alegre. Começa a chover fininho. Eles se conheceram da maneira mais imprevisível. Ela perguntou-lhe onde ficava a Casa de Cultura Mário Quintana e ele apontou para dois quarteirões. E, em seguida, fez-lhe uma sugestão; ou mais precisamente a dica de um filme: "As Mulheres do 6º Andar." Ela o interrompeu: "Acho interessante, mas sou turista, estou a passeio, mas prometo assistir pela internet. Como é mesmo o seu nome?” “Ronaldo e o seu?" "Iara, de São Paulo, e estou louca pra conhecer Gramado para onde viajarei amanhã..."
Ele a levou à Casa de Cultura Mário Quintana e ela ficou maravilhada com o prédio neoclássico, as exposições, as salas de cinema todas com filmes de qualidade, mas que, infelizmente, as sessões já haviam começado. Bateu muitas fotos com um tablet e pediu que ele registrasse uma ao lado do poeta Mário Quintana que olhava semi-risonho de um pedestal de muita simplicidade. Foram belos momentos. Finalmente, sairam e sentaram-se num dos muitos barzinhos da Rua da Praia bem pertinho da Casa de Cultura. Foi aí que ele apelidou-a de "Franjinha", inspirado na graciosa franja que teimava cair sobre os seus olhos muito meigos. Ela gostou do apelido e prometeu conservá-lo. Possuía um bom emprego, era culta e casada com um homem de 50 anos, com
2 filhos e nada ciumento.... Não quisera filhos, e optou por viajar sempre no período de férias. Conhecera Santa Catarina, Curitiba, um pedacinho do Nordeste, Manaus e breve quer ir à Bahia, ao Uruguai e ao Chile. Se bem que o sonho mesmo é curtir a Turquia e a Grécia. Paris, Londres ou os EUA nem pensar... Prefere países bases da civilização. Tão embevecido ele estava com aquele breve relacionamento que nem perguntou pela sua profissão. Agora, ele tem um palpite: psicóloga ou antropóloga.
A "saideira" foi num gracioso barzinho no alto do viaduto da Avenida Borges de Medeiros, onde comeram um delicioso feijãozinho (especialidade do bar). E deixaram seus nomes num livro oferecido pela casa. Lá está até hoje: "Franjinha & Ronaldo passaram por aqui"
Ele, vivendo um relacionamento cordial com uma mulher com quem não faz sexo há três anos (ela sofre de uma síndrome que nega o sexo). Vivem em quartos separados como "irmãozinhos" e tem 3 filhas adultas. Pelo celular colocou Franjinha em contato com uma das filhas que terminara de ser aprovada no vestibular. Ela a felicitou e incentivou-a muito. Depois, passearam e conversaram com muitas pessoas nas ruas que ela achou muito espontâneas.
Ela era magrinha, sem maquiagem ou tatuagem aparentes e não era exatamente bonita. Mas o jeito manso de se expressar, o papo agradável sem afetação e a franjinha tocando insistentemente os olhos muito negros faziam-na encantadora. Fora dos padrões…
Ele ainda mancava a perna direita por conta de um AVC que tivera. Estava precocemente aposentado e fazia fisioterapia e hidroginástica com obstinada aplicação. Usava uma bengala discreta, de junco, idêntica à dos exploradores ingleses dos filmes onde os britânicos metiam o pé. E era um homem relativamente feliz escrevendo ficção. E textos como freelancer…
Por constrangimento ou timidez ele ocultava que a queria, também, na cama. Mesmo que não houvesse sexo... Apenas que ficassem lado a lado olhando para o teto do hotel. Eram 22 horas. Ela tinha exatos 30 minutos para voltar ao hotel e arrumar a mala. Despediram-se e ela partiu, apressadamente, sem saber que poderia ter presenteado este homem solitário com algum momento de afeto apenas olhando para o teto...
PALAVRAS...
conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
Escolheu ao acaso um nome no Facebook. Clicou justamente um que tinha o desenho de uma pomba e não de uma figura humana. Abaixo do desenho, apenas o nome Jaqueline. Ele não tinha preconceito de beleza ou qualquer outro preconceito. Não exigiu uma foto de Jaqueline. E começaram a se corresponder.
Tornaram-se confidentes seis dias por semana. Um diazinho livre para repensar o que comentaram... Falavam de tudo: felicidade e tristeza de cada um. Ele também jamais enviou uma foto. Iam se identificando cada vez mais, só por palavras. Ambos adoravam o bom cinema, especialmente Chaplin, Tarantino e o brasileiro Glauber Rocha. Curtiam o cinema francês antigo e moderno. Eram fãs da Juliette Binoche. Só discordavam em religião: ele era ateu (ou à toa, como dizia). Ela agnóstica. Mas ambos acreditavam que, após a morte, as consciências se encontrariam na eternidade. Nada com sabor de religião...
Passaram-se 3 anos. Véspera de ano novo. Chegou uma mensagem dele. Sofrida, reticente. Dizia em 14 palavras: “gostaria de te conhecer e ir à tua cidade... Te amo... te vejo na eternid...” A frase ficou incompleta. Na outra face do Facebook, ela digitou: “lamento nunca ter visto o teu rosto. Breve nos encontraremos na eternidade... As nossas consciências jamais serão deletadas.” E fechou a página para sempre.
O desfile de beleza estava terminando. As concorrentes confraternizavam com o público quando, de repente, falta energia por cinco minutos. E quando a energia volta... surpresa! Ninguém mais se reconhece. Todos estão com o mesmo rosto. E ninguém observa o fenômeno ou se dá conta de que houve ali um concurso de beleza.
AS MENINAS
UM OLHAR PROFUNDO
ZELANDO PELO PLANETA
conto regisrado por Ronaldo S. Oliveira
Seu olhar era penetrante. Como duas amêndoas verdes, fitava o interlocutor sem desviar do que via. E era particularmente bonito. Desligada das coisas da beleza, até demais para a idade, ela desconhecia ou fazia força para ignorar o fascínio que exercia... Os pais desconfiavam, desde cedo, as coisas diferentes que Ariê fazia: se alguém perdia um objeto, ela encontrava imediatamente. Ou se
alguém estivesse em dificuldades, ela resolvia com preciosos conselhos.
Sempre foi assim. E com o passar dos anos esta qualidade, despretensiosa, só foi crescendo. Passou num concurso público em 1º lugar e no vestibular repetiu o feito. Para melhorar o orçamento, entrou num concurso televisivo respondendo sobre os feitos de Júlio Verne e chegou à etapa final, entusiasmando-se de vez pela Engenharia que cursou com brilhantismo...
Aí a sua vida deu uma guinada. Engajou-se no movimento ambientalista e a sua principal colaboração não era a agitação, mas a solução de sérios problemas que afetavam a vida na Terra... E, então, mergulhou radicalmente num ambicioso projeto contra os combustíveis fósseis. E o seu alvo principal era, nada menos, que a exploração do Pré-Sal e suas consequências a 7.000 metros de profundidade...
Avessa à publicidade, era discreta em suas pesquisas. Mas chegou um momento em que ser discreta era impossível. E qualquer publicidade, naquele momento, era benvinda. Até porque acabara de descobrir junto a uma rede de ambientalistas internacionais um fato impressionante: a compra, fraudada, do tubo destinado a alcançar o Pré-Sal constituído de material absolutamente inadequado para aquele procedimento. Como consequência da corrupção que envolve a Petrobras, o tubo de baixa qualidade, barato e superfaturado, não aguentaria a pressão a tal profundidade e o desastre seria incontrolável, indescritível, trágico...
Ariê e seus companheiros, com a cumplicidade de parte da tripulação de um navio holandês, subtraiu uma pequena peça do complexo de tubos. E a levou para laboratório. E constataram a qualidade inferior. Pela TV, jornais e internet Ariê tornou-se porta-voz do iminente desastre. Ela disse que a fragmentação do tubo espalharia o petróleo incontrolavelmente por imensa parte do oceano e a retenção do jorro a 7.000 metros seria quase impossível. O mar ficaria apodrecido por décadas e décadas. E o desastre alcançaria outros oceanos...
Como consequência, a ONU exigiu que o governo brasileiro suspendesse o projeto Pré-Sal indefinidamente. Não só por apontar a corrupção que cerca o projeto como uma forma de apoio à deliberação dos países mais industrializados do mundo de acabar com os combustíveis fósseis. "Os peixes e as pessoas no planeta podem respirar aliviadas, por enquanto" - suspira Ariê!
A perseguição foi inevitável: Ariê perdeu os incentivos para as pesquisas que realizava e uma moção patrocinada por parlamentares corruptos chegou a ser esboçada na Câmara dos Deputados definindo as ações dela como de lesa-pátria. Só não vingou porque estudantes e pessoas do povo, de todas as classes, protestaram em seu favor. Ela ficou à margem, dando aulas para sobreviver. Mas o que ela queria era pesquisar. Seu mundo era um laboratório...
Ariê não tinha mais ambiente no Brasil. Pensou, pensou e fez as malas rumando para um país ignorado. Hoje, de onde ela estiver, seus imensos olhos verdes preocupam-se com o planeta e apontam, saudosos, para o Brasil.
PONTEIROS
conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
O desfile de beleza estava terminando. As concorrentes confraternizavam com o público quando, de repente, falta energia por cinco minutos. E quando a energia volta... surpresa! Ninguém mais se reconhece. Todos estão com o mesmo rosto. E ninguém observa o fenômeno ou se dá conta de que houve ali um concurso de beleza.
Partem para as suas casas e encontram as ruas cheias de rostos iguais. E tudo segue normalmente. Ao pagar as passagens no metrô, os passageiros não notam que o rosto do funcionário é o mesmo do resto da fila... Os vagões mostram a visão fantástica de uma uniformidade incrível.
Casais de namorados se beijam e se apalpam e ninguém os reprime. Outros casais transam nas praças sem constrangimento. Não há pudor sobre o corpo ou o que dele façam. Não há repressão aos fatos naturais da vida. A violência é banida das televisões. Ausência absoluta de mendigos. A condição de “sem-teto” sequer está na memória. Não há guardas nas ruas e o trânsito não é policiado. Mas o fluxo de veículos segue tranquilamente. Ninguém excede 50 km por hora, pois os veículos já saem das fábricas marcando esta quilometragem como máxima.
Os exércitos foram abolidos e a paz paira no ar. Cachorros e gatos circulam serenamente e os pássaros desconhecem as gaiolas. As vacas estão felizes, pois as pessoas se tornaram vegetarianas. Os governos inexistem e a palavra corrupção saiu do dicionário. Os povos se governam em harmonia por comunidades colegiadas, reciclando as lideranças. Não há crianças fora da escola. E todas as famílias possuem a própria casa. Tudo corre bem…
Triiinnnn!!! Mas o relógio é implacável. E desperta o meu sonho.
AS MENINAS
DE CABELOS VERDES
conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
Em diversas cidades do mundo o fenômeno é o mesmo. Bebês recém- nascidos são encontrados dentro de caixas de papelão à beira de estabelecimentos comerciais. Uma curiosidade: eles não têm genitálias. Nem qualquer orifício por onde possa sair fezes ou urina. Cirurgiões tentam fazer uma abertura para a saída dos dejetos e têm uma surpresa: sempre que os bebês querem fazer alguma necessidade, uma abertura se abre na sola dos pés. Outra particularidade: as criaturas têm cabelos verdes. E todas falam e andam precocemente. Mais tarde, pelas suas feições, os cientistas definem estas crianças como meninas.
A comunidade científica não sabe o que fazer. São 200 espalhadas pelo mundo. Outra curiosidade: a África tem o maior número delas. E aprendem 100 vezes mais rapidamente do que as crianças normais. Elas rapidamente chegam às melhores universidades, onde são disputadíssimas...
Observou-se que elas possuem uma voz fina e meiga, e quando em situação de risco se torna absolutamente estridente, passando dos 200 decibéis. Já adultas, evitam qualquer contato amoroso com homens normais e têm o poder de auto engravidarem-se. Este ato é secretíssimo, mas, a muito custo, descobre-se que isso ocorre num ritual mental. E por dominarem o conhecimento de modo brilhante, assumem os melhores cargos em qualquer empresa, inclusive em postos de governo e alguns comandos militares...
Um antropólogo, observador atento, inicia uma pesquisa minuciosa das estranhas criaturas. E verifica que os fetos produzidos pela auto gravidez, recebem
grande parte do conhecimento disponível ainda no útero. A gestação também é rápida, de apenas três meses. Outra coisa: aparentemente dóceis e meigas, se provocadas demonstram uma agressividade incontrolável.
Com esses dados, um antropólogo chega à conclusão de que a humanidade está diante de gravíssima ameaça. E faz um longo relatório, escondendo uma cópia com a sua namorada. Depois, dirige-se ao Alto Comando das Forças Armadas e entrega o documento original. No retorno seu carro é fechado numa sinaleira e ele é levado para local ignorado. Lá tentam persuadi-lo a revelar o que continha o documento. Ele não revela. Depois, não aguentando mais a pressão, confessa de forma errada. Uma das criaturas, então, inicialmente dócil, impacienta-se e com voz estridente penetra-lhe o cérebro arrancando-lhe todas as informações que desejam.
Um grupo do que já se convencionou chamar de alienígenas vai ao Alto Comando e exige o relatório. Os poucos militares que têm acesso ao documento recusam-se a colaborar e são dominados tendo de entregá-lo. Depois, por um processo cerebral, elas os fazem esquecer-se de tudo, assim como aconteceu com o antropólogo.
Mas algo incrível acontece. O cientista contara para a namorada o desespero que as criaturas sentem quando suas cabeleiras são tocadas por uma simples caspa ou piolho. A moça, munida desta informação, mostra a cópia do relatório às Forças Armadas e a história da aversão das alienígenas aos piolhos e caspas. O Alto Comando repassa a informação para a ONU que instrui os exércitos das nações ocupadas pelas criaturas. E, armados com simples bombas de fumegação, para o desespero das alienígenas, aspergem milhares de litros de caspa e piolhos concentrados em seus cabelos. E, então, em desesperada agonia elas dilaceraram suas cabeças de tanto coçá-las com suas insuspeitadas garras. E, assim, a humanidade se livra de uma inevitável subjugação...
UM HOMEM SÓ,
2 TERNOS E
2 TERNOS E
2 CAMISAS
IMPECÁVEIS...
registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
Alberto recebia a irrisória aposentadoria de um salário mínimo, mas a sua mesa era farta, fartíssima. Ele fizera um curso de culinária que colocava em prática todos os dias só para si. Nunca faltava atum ou carnes nobres (nunca de 2ª), azeite importado, bom vinho e, não raro, caviar...
Por generosidade, em todos os almoços dava boa parte da alimentação para um casal paupérrimo que tinha dois filhos pequenos e moravam num quarto ligeiramente maior que o seu. Sua vida era pacata e duas vezes por semana uma mulher de uns trinta anos passava a noite com ele fazendo sexo...
Três vezes por semana vestia o melhor terno e uma impecável camisa e ia em direção ao maior supermercado da cidade. Ele sabia que havia câmeras vigiando por todos os cantos. Ou, quase todos. Na espaçosa padaria coberta por um toldo que impedia o acesso das câmeras, era ali que Alberto realizava o seu pequeno saque. Ele retirava do carrinho alguns dos poucos produtos e acomodava em bolsos extras o que poderia caber sem ser notado... Depois dirigia-se com elegância ao caixa e pagava por dois ou três artigos bem baratos.
Duas coisas eram fundamentais para o êxito da operação: não ser ganancioso. Nunca levar o que poderia ser notado. Evitar pequenos supermercados, pois eram mais vigiados. Nunca pintar o cabelo branco (o que dava um ar de respeitabilidade). E nunca se esquecer de andar bem trajado. Só uma coisa atrapalhava naquele dia: o excesso de calor, quando o terno e gravata podiam chamar a atenção... Pois foi isso que liquidou o plano de Alberto. O calor. Um excessivo calor de 45% em pleno inverno! Que desarranjo infernal. Alberto estava prestes a ser atendido, quando a caixa avisou que o sistema de ar-condicionado caíra, mas voltaria quando os geradores ligassem. Por uma razão desconhecida os geradores empacaram e já duravam 30 minutos aquela agonia. Os clientes suavam profusamente e as portas elétricas não abriam...
Foi aí que uma garotinha de uns seis anos virou-se para Alberto e sugeriu que ele tirasse o casaco ensopado de suor. Ele relutou, mas acabou concordando. A garotinha tentou ajudá-lo, mas desequilibrou-se com o pesado casaco que caiu quebrando a garrafa de vinho do porto ali escondido. O barulho chamou a atenção da segurança que descobriu todo o ardil. A energia voltou naquele instante e Alberto foi posto na rua com muitos xingamentos... E com a advertência de que não mais voltasse! "Da próxima vez - berraram - vamos chamar a polícia. Não importa que você
seja um velho..."
seja um velho..."
Quando retornou ao seu quartinho encontrou, no corredor, o casal que ele ajudava. E berrou: "não falem comigo! Não me façam perguntas!". E antes de fechar a sua porta, berrou: ”hoje e tão cedo não haverá mais ajuda”. O casaco me dedurou... E o casal não entendeu absolutamente nada.
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CACHAÇA DO BOLO
NÃO CONFUNDIR COM A "CEREJA DO BOLO..."
( PAPO RACISMO )
Texto embriagado de indignação de Ronaldo S. Oliveira
Pergunto: gordo ou negro não bebem cerveja? Claro que bebem. E muito. Agora, encontrem estas duas personagens, nitidamente, nos anúncios de cerveja na TV? Você vai encontrar, sim, DESFOCADAMENTE e em menos de 1 segundo de duração. Só para constar... Mulheres negras e gordas, mesmo branca gorda, então, nem pensar! Para a publicidade ELAS NÃO EXISTEM! Isso é RACISMO. Não tem outra conceituação! Será que esta atitude parte da cabeça dos fabricantes de cerveja ou dos publicitários? Seja lá de quem for, pau neles!
VAMOS DAR NOME AOS BOIS
A BRAHMA mostra, desfocadamente, uma mão segurando um copo, uma cabeça balançando ou mulatas seminuas sambando, aí, com visibilidade. E no seu elenco tem astros negros como Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz.Já a "nossa" POLAR (que é daqui!) os anúncios parecem ter sido feitos na Noruega...
A SKOL - VIVA! - AGORA EM JANEIRO DE 2017 NÃO SÓ COLOCA NEGROS EM SEU
ANÚNCIO TELEVISIVO COMO APRESENTA UM CASAL BICOLOR - UM NEGRO, bem negro, não um "mulatinho", SE BEIJANDO NA BOCA COM UMA LOURA. ESSA "OUSADIA", É CLARO, ACONTECE EM NOME DO MERCADO, POIS NEGRO BEBE MUITA CERVEJA, PERCEBEM, NÉ... MAS JÁ É UM COMEÇO...Na KAISER, a aparição é mínima. O negro passa tão rápido que é difícil notar! Até um esquimó aparece, nitidamente, como o "garoto-propaganda" Kawaka...

A HEINEKEM produz filmes com grande sofisticação mas com um único e solitário negro (não desfocado)...
A ANTARCTICA repete muito a imagem machista da "mulher gostosa"... Associando a cerveja à uma "loura sexi", despudoradamente sexi...
A SCHIN, que perdeu o ZECA PAGODINHO para a BRAHMA, desconhece GORDOS e NEGROS... Pelo menos com nitidez...
DEVASSA-NDO CONCEITOS
"É PELO CORPO QUE SE CONHECE A VERDADEIRA MULHER NEGRA". É assim que a publicidade da DEVASSA tentou promover a sua cerveja preta, a Tropical Black, seguida de uma ilustração hipersexualizada. A frase, sexista e racista, segundo o Movimento Negro e Organizações Feministas, levou o Ministério da Justiça a processar administrativamente a Brasil Kirin, do Grupo Schincariol. Pergunta-se se a mulher negra "normal", gorda ou magra, não supersexualizada deixaria de ser verdadeira?!
Segundo o CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), "é direito básico do consumidor a proteção contra a propaganda abusiva. Na sociedade de consumo, a publicidade é um indicativo do padrão ético adotado pelas empresas para oferta de produtos e serviços. Não se pode admitir que para vender alguma coisa, sejam utilizadas mensagens discriminatórias que reforcem estereótipos de gênero e étnico-raciais e que aprofundem as desigualdades".
Pelas suas normas "a propaganda de bebidas alcóolicas não pode ter como principal apelo a sensualidade, no que os fabricantes de cerveja exploram o corpo da mulher como "símbolo", "a mulher-ideal", "a mulher-ilusão", "a mulher-hipersensualizada" a serviço dos desejos masculinos, cujos efeitos pedagógicos são altamente negativos para garotos e garotas reduzindo à coisificação da mulher. Especialmente para jovens em construção de uma visão crítica onde a sua capacidade de fazer escolhas é facilmente seduzível pela propaganda". E pedir uma Devassa - assegura a publicidade - é "pedir a dose certa de segundas intenções".
Já que a lei demora uma eternidade para disciplinar esta terra de ninguém, este blog não dará trégua pra eles!



